Livres para Rodar...


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Seja bem vindo, Irmão motociclista, à IRMANDADE SEM FRONTEIRAS.

Somos um grupo de amigos amantes do motociclismo saudável, da liberdade e do respeito mútuo. A IRMANDADE SEM FRONTEIRAS possui líderes, jamais um dono, pois somos reais e apaixonados pela liberdade. Temos coração e mente em nossos irmãos, em nossas motos e na estrada, praticando um motociclismo solidário e fraterno, deixando por onde passamos um exemplo de homens e mulheres de bem.

IRMANDADE SEM FRONTEIRAS
Livres para Rodar!

Depoimentos, Relatos e Mensagens



O 4º Cataratas Moto Fest e O 4º Festival de Motociclistas de 2012
ou De Como Parti Sem Nada e Voltei Com Menos Ainda


A origem da rota desta viagem teve 3 motivos principais, a saber: A promessa que eu havia feito em 2011 ao Alejandro de estar presente ao 4º Cataratas Moto Fest em Puerto Iguazú – Misiones – Argentina. A desmesurada vontade de rever amigos queridos em Prudentópolis (PR), Santa Maria (RS), Pelotas (RS), Candiota (RS), Bagé (RS), Camaquã (RS) e São José (SC). A grande farra que seria rever os digníssimos parceiros da nossa Irmandade Sem Fronteiras em Dom Pedrito (RS).

No início do ano, certa quantidade de motociclistas conhecidos meus manifestaram interesse em ir ao 4º Cataratas Moto Fest, e a maioria queria viajar comigo para lá. Conhecedor que sou dessa bolha que infla e depois se esvai, me segurei nas de trás e fiquei só aguardando as desistências.

Em abril estava certo que o Carlão, sua esposa Cláudia e mais alguns integrantes do Poca Sombra M.C. de São Paulo iriam viajar comigo, além do Formigão, baita parceiro de grandes jornadas e integrante do Rota Alternativa M.C. da Ilha do Governador (RJ) e do nosso grupo supramotoclubístico A Certeza de Ser, o qual aguardava apenas a confirmação de adiamento de um procedimento médico, para juntar seus panos de bunda e partir comigo para os dois eventos motociclísticos citados.

Chegando o mês de maio do corrente ano o Carlão, sua esposa e os integrantes do seu moto clube abortaram a missão. Em compensação o Formigão, a Aninha e o casal Luizinho & Alzira bateram o martelo e disseram sim a esta viagem, ao menos em seu primeiro trecho, e o Formigão carimbou seu visto para o trajeto total de meu plano de voo inicial.

A propósito, Aninha é de Juiz de Fora (MG) e pertence aos grupos Independents Rider’s e A Certeza de Ser. Luizinho é do Rota Alternativa M.C. e também do A Certeza de Ser.

E finalmente ficou acertado que no dia 09 de maio Luizinho & Alzira sairiam da Ilha do Governador. Aninha sairia de Juiz de Fora e se encontraria com Luizinho & Alzira em Rezende (RJ). Formigão sairia da Ilha do Governador no dia 08 e seria recebido por mim em um posto de combustíveis em Arujá (SP), lugar esse que já se tornou nosso habitual ponto de encontro.

De minha parte, fiz revisão em minha moto que já não era mais minha, arrumei minhas tralhas e deixei tudo certo e não resolvido. No dia 07 de maio, tarde da noite, enquanto esperava inutilmente por um certo telefonema, fiquei em compasso de espera para a chegada do Formigão.


Dia 08 de maio

O dia que me acordou estava bacana. Reconferi documentos, dólares, coisas de primeira necessidade e tralhas em geral. Logo depois Formigão me telefonou dando conta de que estava pegando estrada.

No horário combinado encostei a moto no posto e logo depois aportou o Formigão, que havia feito uma viagem tranquila e sem novidades. Almoçamos no restaurante do próprio posto e seguimos para as Bocas de Moto no centro da cidade de São Paulo.

Lá o Formigão assuntou o que precisava, visitamos amigos, demos um bordejo geral e fomos para meu bunker em Guarulhos (SP), onde o Formigão se instalou convenientemente, tirou o pó da estrada e relaxou. Bom que eu diga que se instalar convenientemente em minha casa é apenas pura força de expressão.

À noite, enquanto degustávamos queijos, salames e outras tranqueiras regados a Patagonia, rum Captain Morgan e outros líquidos que passarinho não bebe, com o auxílio luxuoso de um aperitivo de vinho de catuaba, fomos sabedores de que Aninha e Luizinho & Alzira sairiam mesmo no dia seguinte, pernoitariam perto da capital dos paranaenses e que estava tudo bem com eles.

Fomos dormir algo cedo para nossos padrões, principalmente para mim que de algum tempo para cá só durmo depois das 2:00 h da madrugada, a esperar pela possibilidade daquele certo telefonema que teima em não acontecer.


Dia 09 de maio

Nosso toque de alvorada foi às 5:00 h, ainda noite pega e fria, com café da manhã light à base de frutas. Depois das barrigadas matinais nos pilchamos, descemos as escadas, conferimos o encilhamento das motos, nos desejamos boa estrada e saímos rumo a Prudentópolis (PR), onde aconteceria nosso primeiro pernoite.

Seguimos pela rodovia Presidente Dutra (BR-116), Av. Marginal Direita do rio Tietê em São Paulo e após parcos 20 minutos, posto que a hora do rush ainda não se havia iniciado, entramos na Rodovia Castello Branco (SP-280).

Paramos em Jandira (SP) para termos um reforço de café da manhã, pois ainda que este primeiro trecho de viagem se prenunciasse tranquilo, certamente teríamos desgaste físico.

Prosseguimos pela mesma rodovia até o trevo para Tatuí (SP), onde entramos à esquerda e pegamos a rodovia SP-127. Na altura de Itapetininga (SP) havia muita neblina rés do chão e no meio dela, num voo meio cego, entramos na rodovia SP-258.

Fizemos uma parada técnico-mijatória-alongante em Taquarivaí (SP) já sob céu de brigadeiro e com temperatura em ascensão. Nessaparada por pouco não fomos vítimas de pane seca, pois chegamos ao posto com os tanques das duas motos já utilizando a reserva havia algum tempo.

Após um breve descanso e hidratação, Formigão deu um tapa no tabaco e seguimos pela mesma rodovia até Itararé (SP), onde o rio de mesmo nome rasga a divisa de São Paulo com o Paraná. A partir desse ponto a identificação dessa estrada passa a ser PR-151. Por ela seguimos no mesmo rumo Sul na direção de Ponta Grossa (PR).

Paramos em Jaguariaíva (PR) especialmente para fotografarmos parte da generosidade da mamãe Natureza, e na ponte sobre a qual passamos a pé para fazermos as fotos, havia uma grande colmeia. Saímos de lá mascando e cuspindo abelhas, que foi uma forma inusitada e radical de ingerirmos mel.

    
Fizemos novo pit stop em Carambeí (PR) a apenas 80 km de Prudentópolis, pois minha bexiga estava a ponto de entrar em colapso. Afinalcada qual chora por onde tem saudade...

Prosseguimos descendo até Ponta Grossa, onde entramos à direita e seguimos pela rodovia BR-373 que nos levaria a Prudentópolis, e lá chegamos com tempo bom, muito bom.

Fomos festivamente recepcionados pelos amigos motociclistas locais Denilson e Adilson. Cabe aqui esclarecer que qualquer semelhança com nomes de duplas sertanejas será mera coincidência, pois eles desafinam até dando risada.

    
Fomos convidados para um jantar especialíssimo e para pernoitarmos em casa do Adilson. Aceitamos prontamente o convite para o rango, mas declinamos da possibilidade de dormirmos no Adilson para não tirarmos a privacidade e o sossego de sua família. Foi aí que a armação dos meus óculos usuais se quebrou e tive que lançar mão dos óculos de reserva.

Nos hospedamos no Mayná Palace Hotel, um tanto espartano e que de palace não tinha nada, mas era simpático, com acomodações bem razoáveis e chuveiro irretocável, perfeito. Tiramos o pó da estrada e um pouco do cansaço.

Às 20:00 h o Denilson veio nos buscar e nos levou à sua chácara, onde nos aguardavam muitos motociclistas machos e fêmeas. Fomos recepcionados condignamente com um jantar espetacularmente delicioso. Nos serviram o indefectível perohe, prato tradicional da culinária ucraniana, saladas, arroz, petiscos vários e um baita churrasco. A cereja desse bolo foi uma garrafa do legítimo rum Captain Morgan que o Denilson e a Márcia carinhosamente tinham ido buscar na Argentina só para nos mimar, pois ele havia lido em meu livro que nós somos apaixonados por esse rum, e que para apreciá-lo corretamente se faz necessária uma certa liturgia. Isso que é verdadeiramente carinho e consideração. Gracias, Denilson e Márcia.

    
Com esse pessoal animado e de bem com a vida conversamos muito sobre tudo e mais um pouco, e por volta da meia-noite fomos conduzidos pelo Adilson de volta ao hotel.

    
Depois de um cafezinho e da pitada sine qua non do Formigão, fomos dormir porque o dia seguinte seria de mais (muita) estrada.


Dia 10 de maio

Acordamos calmamente tendo como despertador a benfazeja luz do sol. Após barrigadas competentes para descomermos o substrato do lauto jantar da noite anterior, tivemos nosso desjejum, encilhamos as motos e saímos do hotel rumo à região da Tríplice Fronteira pouco após às 9:00 h. Reentramos na mesma estrada que nos havia deixado em Prudentópolis e passamos a comer léguas.

Fizemos um pit stop mais demorado que o normal em Virmond (PR), e olhando para o nada danei a cismar acerca de meus erros e infortúnios. Concluí que errei muito pouco para ser punido tão severamente, e que o que cometi foi de boa fé na inútil (será ?) tentativa de ser feliz.

Prosseguimos com tempo muito bom e com um sol de cinema pela popa, já trafegando pela rodovia BR-277, e paramos em Céu Azul(PR) no Forlim, meu tradicional ponto de parada naquela região, e ali saboreamos a melhor salada de frutas com sorvete do Brasil, quiçá do planeta (não é, Carlão ?). Igual a essa, somente no Shopping del Sol em Asunción, Paraguay.

Como Formigão não estava com nenhuma fome, deglutiu “apenas” uma grande torta de palmitos e duas maxi saladas de frutas com sorvete de banana. Nisso ligou a Aninha nos dizendo que ela, o Luizinho e a Alzira estavam a 150 km antes de Cascavel (PR). Diante disso, resolvemos seguir viagem e aguardá-los em Foz do Iguaçú (PR). Ficou combinado que eles nos ligariam de Medianeira (PR) e nós os recepcionaríamos na entrada principal da cidade.

Chegamos a Foz do Iguaçú com um tempo dos deuses e temperatura de 28 graus. Fomos diretamente para o Hotel Suiça, do amigo motociclista Alejandro. Nos instalamos, Formigão deu uma sonora cochilada (só para variar), enviei alguns torpedos e passamos a aguardar a raça.

Como a noite atropelou o sol sem aviso, antes do horário combinado fomos para a rotatória de entrada da cidade, junto à rodovia BR-277, e ficamos num plantão visual no acostamento, posto que nessa altura já era noite, mais escura que apagão em estádio de futebol quando o time da casa está perdendo.

Esperamos cerca de 20 minutos e o povo chegou um tanto cansado. Após longos abraços, ali mesmo no acostamento escuro fizemos uma reunião de cúpula (não de cópula) e decidimos ir direto para a Argentina.

Já em Puerto Iguazú (AR), Luizinho & Alzira se instalaram no hotel em que haviam feito reserva e fomos para o QG da organização do 4º Cataratas Moto Fest. Lá fomos muito bem recebidos pelo Marcelo, pelo Alejandro e pela Agustina, Maitena e Alejo, respectivamente esposa, filha e filho do Alejandro.

Após fazermos nossas inscrições neste que é o maior evento motociclístico da República Argentina, e matarmos saudades dessa gente boa e hermana, ancoramos num bar bem simpático para baixarmos a adrenalina sob os auspícios de algumas Stella Artois geladinhas. E o Luizinho se aventurou a tomar Brahma argentina. O cabra deve ter fígado de aço.

    

Depois de algum tempo não mensurado, algo entre 15 minutos e 3:42 h, fomos para um bar-restaurante onde jantamos fartamentechorizo con papas fritas y ensalada, e spaghetti com tranqueiras, tudo regado a Quilmes. Muito bom.

    
A propósito, cabe aqui um adendo interessante: a Quilmes, diferentemente das outras cervejas, é fabricada a partir da fermentação do milho.

Como naquela altura da noite as sorveterias já se encontravam fechadas, Formigão fumaceou uns dois ou três bastões nicotínicos, e retornamos ao Brasil e ao Hotel Suiça.

Aninha se instalou finalmente e nos disse depois que lavou suas roupas até às 3:00 h da manhã. Formigão hibernou. Eu dei uma barrigada de good night ou de buona notte e me deitei com o pensamento longe, voando lá pras bandas das charqueadas.


Dia 11 de maio

O dia amanheceu totalmente mau humorado, rancoroso, brigando com a vida, como se estivesse querendo lavar a maldade do mundo com suas lágrimas, pois chovia em profusão, uma pancada d’água profissional.

No café da manhã reencontramos o Everson, diretor do site Mototour, e o Geraldo, manager do Jornal Motocycle. Reacordamos a Aninha e ela, depois que teve seu café da manhã, foi com o Formigão ao Paraguay debaixo de chuva. Eu fiquei na retaguarda porque não me animei a ir, deixando para o dia seguinte, já que tempo era o que não me faltava.

Everson e Geraldo já haviam ido transpor a Ponte da Amizade, que une o Brasil ao Paraguay nessa região da Tríplice Fronteira. Como são gente fina foram a bordo de uma van, e o resto da plebe foi de busão urbano mesmo. Noblesse oblige.

Recebi a notícia de que o Capitão, diretor geral da Revista Demoto de Pato Branco (PR), já estava na área, porém não havia ainda dado as caras por nossa base operacional.

Fui para a beira da piscina municiado com algumas frutas e uma ampola de água mineral com bolinhas. Fiz algumas anotações, falei por telefone com Deusdará, que estava em seu lava rápido em Guanambi (BA), sob o patrocínio da mamãe TIM.

Daí “viajei” um pouco pensando nela... te extraño, mi rubia. Quizás mañana...

Então sentaram-se na mesa ao lado Palito Rios, Gordo e Marcelo, motociclistas argentinos de Buenos Aires. Liguei minha tecla SAP e garramos numa baita prosa regada a um verdadeiro mate argentino. A conversa estava tão boa que perdemos a noção do tempo e papeamos tarde adentro, e só suspendemos a tagarelice no idioma de Evita Perón quando os aventureiros da chuva retornaram das terras do bispo Lugo, mais encharcados que hóstia no vinho.

Depois que Formigão e Aninha se recompuseram minimamente, fomos todos para o evento no lado argentino, transpondo novamente a ponte internacional Presidente Tancredo Neves.

Depois de nos reencontrarmos com algumas figurinhas carimbadas do motociclismo sulamericano, cambiamos dólares e reais por pesos argentinos já com vistas à nossa breve incursão através das terras de San Martin, Maradona, Guevara e Cristina, que aconteceria no domingo subsequente.

Passeamos um pouco pela cidade, tomamos sorvetes, e na volta nos reencontramos finalmente com o Capitão, matando assim nossas saudades.
                                
                          

Em meio ao mar de motociclistas que circulavam pelo evento, o Alejandro me avisou que havia um canal de TV da Argentina que queria me entrevistar, pois o apresentador do programa já tinha ouvido falar de mim. Aguardei um pouco no QG da organização do evento, e logo depois chegaram o repórter e o câmera-man de uma cable TV de Buenos Aires. E rolou uma entrevista rápida e bacana, en español, evidentemente.

Sugeri ao repórter que entrevistasse também o Formigão e a Aninha, e participei também dessa matéria na condição de intérprete. Foi maneiro.

Depois fomos a um mercadinho onde compramos chocolates (muitos), batatas fritas, rum Captain Morgan (of course) e fernet Capri. Logo após nos reencontramos com o Adilson de Prudentópolis, com o Everson e com o Geraldo.

Luizinho, Alzira, Aninha, Formigão e eu nos reunimos e fomos jantar num rodízio de pizzas até que razoável. De sobremesa, sorvetes... muitos sorvetes.




Bem mais tarde nos reencontramos com Denilson e Márcia, que acabavam de adentrar ao recinto do evento, procedentes de Prudentópolis.

Por fim, como Aninha resolveu permanecer por mais tempo no evento, Formigão e eu retornamos ao hotel para cairmos nos braços já cansados de Morfeu. Nanamos quais duas crianças.



Dia 12 de maio

Acordamos cedo e tomamos logo nosso café da manhã. Como o tempo tinha melhorado sobremaneira, Aninha resolveu ir ao passeio das motos às Cataratas argentinas. Formigão voltou a dormir, e eu fui solito hasta el Paraguay.

Quando retornei com algumas muambas de que eu precisava, acordei o Formigão, nos arrumamos calmamente e, quando já estávamos de saída para matarmos a fome, Aninha nos ligou da Argentina dizendo que ela, o Luizinho (o outro) e sua esposa iriam almoçar conosco na Churrascaria do Gaucho, no centro da cidade de Foz do Iguaçú.

Passamos num caixa eletrônico junto a um dos Supermercados Muffato, e quando já ligávamos as motos para seguirmos até a churrascaria, Aninha Luizinho (o outro) e sua esposa apontaram na curva. Se tivéssemos combinado não teria dado tão certo. E seguimos todos juntos para almoçarmos na tal churrascaria de que tínhamos ouvido falar muito bem.








Comemos maravilhosamente bem, inclusive com o requinte ímpar de cortes de coelho, faisão, javali e cordeiro. E para não deixar por menos, me fartei ao exagero provando das seis qualidades de sobremesas que havia. Es-pe-ta-cu-lar !

Retornamos ao hotel rapidamente para não sermos surpreendidos pela madorna que fatalmente viria como efeito colateral por tanta comida. Logo depois chegaram os pneus que Aninha e Formigão haviam comprado para suas motos no Paraguay, e eles aproveitaram a derradeira e inútil tentativa de a tarde ganhar sua briga com a noite, e foram trocar os pneus traseiros de suas motos.

Quando os dois retornaram do borracheiro, tratamos de nos pilchar para a última e promissora noite do 4º Cataratas Moto Fest.

A noite não estava nada fria e a grande quantidade de pessoas presentes aquecia ainda mais todo o evento.




Para abrirmos os trabalhos desse dia tomamos finalmente algumas Patagonia no Mercado Popular de Puerto Iguazú, chamado carinhosamente de feirinha. Para acompanhar, pedimos uma boa tábua de frios. Foi uma bem vinda fisioterapia aeróbica nos maxilares.
          
                

Para exercitarmos as pernas demos outro bordejo pelas ruas das cercanias, compramos cartões postais e erva mate argentina, que me agrada muito.

E fomos nos encontrando com a raça toda, ou seja, Alejandro, Agustina, Marcelo e Silvio da organização do evento; Geraldo, Everson, Cassola, Capitão, Luizinho (o outro) e esposa, Denilson e Márcia, e finalmente nos encontramos com o Bleiner e com o Elizeu (Lilica). E fomos todos juntos, ou quase, comemorarmos tomando Stella Artois e Quilmes. O evento estava por demais animado e totalmente lotado com muita gente simpática e bonita. A conversa mole e fiada foi até às tantas, e como eu precisava ainda arrumar toda minha bagagem, agora um pouco aumentada pela muamba paraguaya e pelas garrafas de Fernet argentino, tratei de voltar ao hotel perto da 1:00 h da madrugada.




A raça ficou ainda um bom tempo na muvuca do evento. Assim que o Formigão chegou de volta, tratamos de dormir porque o dia seguinte seria de estrada por dentro da Argentina.
                            

Aqui cabe um esclarecimento para o bom entendimento do restante do texto: até onde nós sabíamos, após o Cataratas Moto Fest, Aninha retornaria para sua casa em Juiz de Fora por expirado que estaria seu alvará, e Formigão e eu seguiríamos Argentina adentro e desaguaríamos em Dom Pedrito (RS) para o evento que aconteceria no final de semana seguinte. Porém, Aninha resolveu enfiar o pé na jaca, ou melhor, mergulhou de cabeça na fruta, rodou a bahiana e gritou – “Não quero nem saber, estou dentro ! Vou junto com vocês !” E quem somos nós para contrariá-la ?


Dia 13 de maio

Este era o segundo domingo de maio, Dia das Mães no Brasil e no Paraguay. Parabéns, mamães ! Beijo do Marcão.

Era também o Dia da Independência no vizinho e Hermano Paraguay. Arriba, Paraguay !

“El nacimiento de un mundo se aplazó por un momento
un breve lapso del tiempo, del universo un segundo.
Sin embargo parecía que todo se iba a acabar
con la distancia mortal que separó nuestra vidas.

Realizaron la labor de desunir nuestras manos
y apesar de ser hermanos nos miramos con temor.
Cuando pasaron los años se acumularon rencores,
se olvidaron los amores, parecíamos extraños.

Qué distancia tan sufrida, que mundo tan separado
jamás hubiera encontrado sin aportar nuevas vidas.
Esclavo por una parte, servil criado por la otra,
es lo primero que nota el último en desatarse.

Explotando esta misión de verlo todo tan claro
un día se vio liberado por esta revolución.
Esto no fue un buen ejemplo para otros por liberar,
la nueva labor fue aislar bloqueando toda experiencia.

Lo que brilla con luz propia nadie lo puede apagar,
su brillo puede alcanzar la oscuridad de otras cosas.
Quién pagará este pesar del tiempo que se perdió.
de las vidas que costó, de las que puede costar.

Lo pagará la unidad de los pueblos en cuestión,
y al que niegue esta razón la historia condenará.
La historia lleva su carro y a muchos nos montará,
por encima pasará de aquel que quiera negarlo.”
                                                    (Pablo Milanés)
Y hoy, mientras nos miramos, entre nosotros no pasa nada más. Pueblos de Latino América, somos hechos de amores y de amistades. Somos hermanos, verdad ?

Este dia era também comemorativo da libertação dos escravos no Brasil, mas não dos escravos, como eu, do amor por uma princesinha gaucha linda, adorável, doce e muito, mas muito birrenta.

Acordamos bem cedo, encilhamos as motos, tomamos um ótimo café da manhã, emagrecemos um pouco com eficientes e providenciais barrigadas e ficamos um bom tempo nos despedindo dos motociclistas que, em pequenos bandos, estavam partindo.

Saímos por fim do hotel e fomos para a Argentina una vez más para nos despedirmos do Alejandro e do Marcelo e para agradecer-lhes pelo grande carinho e consideração com que fomos brindados, além de parabenizá-los pelo grande evento realizado.

Em Puerto Iguazú entramos na Ruta 12, bela e calma estrada que corta uma região madeireira de muita beleza. Em Puerto Esperanza (AR) fizemos uma parada técnica, mijatória e alongante, mais mijatória que técnica ou alongante.


            

No trevo de acesso para El Alcázar (AR) saímos da Ruta 12 e seguimos pela Ruta 9 no rumo de Dos de Mayo (AR) com um dia lindo, quase tão lindo quanto os olhos dela.

Em Dos de Mayo saímos da Ruta 9 e passamos a rodar pela Ruta 14. No caminho, pouco antes de Oberá (AR), paramos para fotografar um cemitério diferente, simples, sem muros e com um portal magnificamente florido.




Em Aristóbulo del Valle (AR) fizemos outra parada que se revelou diferenciada, pois danamos a prosear com habitantes do lugar, e como a Aninha quase não gosta de conversar, gastamos um tempo imenso ali naquela estación de servícios, tanto que o Formigão fumou uma meia dúzia de 4 ou 5 cigarros.
                      
                    

Esse pessoal simpático e afável nos recomendou entrar na cidade para apreciarmos a paisagem que se divisa de um mirador (mirante ou belvedere). Seguimos a sugestão e não nos arrependemos, pois além da bela paisagem que pudemos ver, a cidadezinha era também uma graça, com cara de que abriga gente feliz.



Saímos de Aristóbulo del Valle e prosseguimos para o Sul pela Ruta 14 até San Javier (AR), onde entramos e fomos diretamente para o porto fluvial às margens do rio Paraná, que naquele trecho desenha a fronteira entre a Argentina e o Brasil.

Fizemos nossas saídas regulares da Argentina e embarcamos com as motos na balsa que, após curta travessia, nos deixou em solo brasileiro, na localidade de Porto Xavier (RS).




Ainda a bordo da balsa recebi torpedo da Nanda me agradecendo pela cesta de café da manhã que eu lhe havia enviado pelo Dia das Mães. Eu estava apreensivo por não saber se ela iria ou não gostar, se ficaria feliz. E fiquei mais faceiro que guri de bombachas novas. Beijo, Nanda, te amo.

Já em terras tupiniquins seguimos para as Missões Gauchas passando por São Luiz Gonzaga (RS), e chegamos por fim a São Miguel das Missões (RS) após a entrada da boca da noite num percurso calmo e relaxante.

    

Nos hospedamos na Pousada das Missões, lindinha, muito aconchegante, com staff simpático e competente. Essa pousada já era minha velha conhecida e gosto muito de me hospedar lá. Há cerca de 1 ano Formigão e eu nos hospedamos ali.

Telefonei ao Quinhones, parceiro da Irmandade, dando-lhe conta de que chegaríamos a Santa Maria (RS), onde ele habita, no dia seguinte por volta da hora do almoço e ele se prontificou a nos aguardar para nos recepcionar.

Saímos para jantar no Restaurante Barum, e nos foi servido um ragu acima da média, com preços idem. Mas valeu a pena cada centavo, até porque o melhor tempero é a fome, e isso não nos faltava. Mas a comida estava bem boa mesmo.

       

Voltando à pousada, Formigão foi dormir e fiquei com Aninha conversando muito acerca de dores e amores. Enquanto Aninha foi ao seu quarto, fiz algumas anotações. Quando ela retornou tomamos um bom mate na companhia do simpático e querido Sr. Bráulio, guarda da pousada. Bem mais tarde fomos dormir. Efetivamente a Aninha é a irmã mais nova que a vida não me deu. Obrigado por me ouvir e por entender minhas lágrimas, Aninha.

Interessante registrar que no trecho desse dia, por conta de informações incompletas ou incompreendidas, e por desatenção de nossa (minha) parte, erramos o caminho umas 187,2 vezes. Por esse fato chegamos às ruínas de São Miguel Arcanjo com a noite já bombando, e como meus óculos reserva tinham lentes azuis, eu não enxergava quase porra nenhuma de noite.

Dia 14 de maio

O dia lindo que nos despertou havia pendurado na janela da vida um sol desmesuradamente lindo, emoldurado por um céu dipinto da Michelangelo, e acordamos um pouco mais tarde que o usual até por conta do trecho reservado para esse dia, que não era longo.

Na manhã orvalhada e cheirosa fazia um friozinho gostoso que dava vontade de namorar, e com trilha sonora de canto de pássaros tomamos nosso café da manhã.

De volta aos nossos quartos nos pilchamos, reencilhamos as motos, lubrifiquei as correntes das transmissões secundárias das motos minha e da Aninha, e calmamente como sugeria aquele lugar de paz saímos da pousada buscando um posto para reabastecimento das motos, enquanto que o sol nos propiciava uma linda manhã com milhões de pequenas luzes formadas pela incidência dos seus raios nas florezinhas plenas de gotas de orvalho, quais ínfimos vagalumes tardios. Pura poesia.

          

Saímos do posto e pegamos estrada. Prosseguimos numa viagem tranquila, apenas sacudida por uma interrupção na faixa de rolamento causada por um grave acidente com vítimas na BR-158, na altura de Julio de Castilhos (RS). Os bombeiros estavam lavando o leito carroçável da estrada, que estava impregnado de óleo diesel e de gasolina.
                                 

Ao chegarmos a Santa Maria paramos num posto de combustíveis e inevitavelmente pensei nela, acordando do meu torpor apenas quando o Quinhones me telefonou e, ato contínuo, veio ao nosso encontro.

Após abraços fortes de quem vem de longe e das apresentações, Quinhones nos levou para sua casa e passou a nos servir um churrascão delicioso e loco de especial. Tudo estava muito saboroso, desde o salsichão, passando pela maminha e costela, e terminando na salada, na farinha e até no cacetinho. De se ressaltar o feijão que estava incrivelmente delicioso e com sabor de carinho e de quero mais. E tudo isso regado a cachaça da boa, vinho, cerveja e ao autêntico rum Captain Morgan, logicamente.




Que baita anfitrião é o Quinhones ! Não que nossos outros parceiros não o sejam, mas ele se esmerou muito em nos servir da melhor forma, nos deixou completamente à vontade e se preocupou com cada detalhe para nosso bem estar.

No final da tarde chegou a Maria, esposa e fiel escudeira do Quinhones, e à noite ambos nos prepararam e nos serviram um arroz de carreteiro com salada. Coisa bem boa.

Daí, ficamos falando (novamente) mal dos ausentes para baixar o bolo alimentar, e bota bolo nisso. Talvez por ter comido demais e certamente por meus pensamentos estarem na região da fronteira sul por lembrar do meu outubro de 2011 em Santa Maria, e a tristeza decorrente disso, me deu um estranho piripaque, mas depois de me deitar um pouco melhorei totalmente e fiquei novo de novo, ou quase. Pura emoção.

Então Quinhones e Maria nos conduziram ao Hotel Paraíso, onde o Cleber, grande amigo e parceiro motociclista de Santa Maria, nos havia gentilmente feito reservas.




No átrio do hotel agradecemos muito ao Quinhones e à Maria pela carinhosa recepção e hospitalidade, e prometemos nos encontrar no final de semana subsequente em Dom Pedrito. Nos instalamos rapidamente e fomos dormir, pois o dia havia sido repleto de sensações, além do que sairíamos cedo para Pelotas (RS) no dia vindouro.


Dia 15 de maio

O dia claro e límpido amanheceu frio, bem frio. Logo após nosso café da manhã a cidade foi envolta por uma densa e úmida névoa que fez baixar ainda mais a temperatura, e pegamos estrada em meio a essa bruma típica dos filmes noir. Era como se todos os magrinhos malucos locais tivessem tido vontade de queimar seus cigarrinhos do demônio ao mesmo tempo. Imagino o tamanho da larica que sobreviria...

Os primeiros kilômetros desse dia foram um tanto difíceis e algo perigosos, mas pouco depois a neblina se estratificou e subiu, dando lugar a um sol quase tão lindo como o sorriso dela. Mas o frio intenso permanecia... tão frio quanto o desprezo e a indiferença dela para comigo.

A viagem transcorria por demais tranquila, agradável e calma. Fizemos uma parada boa em Canguçú (RS) para reabastecimento, mijadinhas e principalmente para que eu telefonasse ao Henrique e ao Ademir para posicioná-los quanto ao tempo que ainda demoraríamos para chegar, pois os mesmos haviam ficado de nos esperar no entroncamento entre as rodovias BR-158 e BR-293, perto da Cascata (lembras, Nanda ?) já em terras pelotenses.

Prosseguimos então, e já na BR-293 avistamos o Henrique, sua filha Bia e o Ademir nos aguardando no acostamento do lado esquerdo, numa parada de ônibus. Nosso encontro foi uma festa, e após abraços, beijos e um breve bate-papo, fomos levados ao Hotel do Cacalo, grande parceiro, bem no centro de Pelotas.
                    


Antes mesmo de nos instalarmos no hotel, vestimos roupas leves e fomos almoçar capitaneados pelo Ademir, no Restaurante Alles Blau. Bom, mas muito bom mesmo. Depois fomos a bancos, farmácia e correio.
                           
Daí voltamos ao hotel para então nos instalarmos de fato, tirarmos o pó da estrada e relaxarmos um pouco, ainda que eu estivesse tenso pela carga afetivo-emocional que Pelotas e uma sua certa habitante me trazem.

Aninha ficou dando um bordejo pelo calçadão, e na certa voltaria com alguma sacola, posto que os preços das vestimentas em Pelotas são muito convidativos.

No final da tarde Formigão foi ao barbeiro e Aninha e eu fomos com o Ademir à oficina do Maurício, na Cohab Tablada. A Ana foi tentar solucionar alguns pequenos problemas de sua moto e eu, idiota que sou, fui equivocadamente tentar resolver, ou encaminhar de uma vez minha questão afetiva de altíssimo grau com a mulher que amo.




Aninha, depois de longa conversa com o Maurício, marcou o conserto de sua moto para a manhã do dia seguinte, enquanto que uma moça linda, tão linda quanto assustada, de cabelos de raios de sol e olhos cor do mar, correndo montou no lombo de garupa de uma pequena moto e sumiu na noite fugindo com medo talvez de entregar o ouro com a possível reação que teria ao me mirar nos olhos plenos de amor e de verdade, temendo enfrentar seus próprios fantasmas criados por alguns erros, equívocos e atitudes conflitantes, algo permissivas e que não são características dela. E fugindo de mim não se deu conta de que fugia de si mesma, pois ela mora dentro de mim, eu a respiro, ela é a minha própria vida. E assim tão distante ela perde tanta vida e deixa de aproveitar tanta coisa boa...

"Mia,
aunque tú vayas por outro camino
aunque jamás nos ayude el destino,
nunca te olvides sigues siendo mía.

"Mia,
aunque tú vayas por otro camino
aunque jamás nos ayude el destino,
nunca te olvides sigues siendo mía.
”Mía,
aunque tú vayas por otro camino
aunque jamás nos ayude el destino,
nunca te olvides sigues siendo mía.
Mía,
aunque con otro contemples la noche
y de alegría hagas un derroche,
nunca te olvides sigues siendo mía
Mía,
porque jamás dejarás de nombrarme
y cuando duermas, habrás de soñarme
hasta tú misma dirás que eres mía.
Mía,
aunque te liguen mañana otros lazos,
no habrá quién sepa llorar en tus brazos,
nunca te olvides sigues siendo mía.
Sí, siempre mia”
                                    (Armando Manzanero)
Voltamos para o hotel já à noitinha, e pouco mais tarde fizemos uma roda de chimarrão composta por Cacalo, Ademir, Aninha, Formigão e eu. Apesar de eu estar me sentindo sem alma naquela altura, foi muito bom e providencial estar na boa companhia de amigos sinceros e de fé. E o chimarrão aquecia meu vazio interior.




Depois fomos ao Picanha Express. Formigão e Aninha jantaram bons pratos e eu, por motivos óbvios, não estava com a menor fome, e tomei apenas o vinho da casa que nos tinha sido servido. Meu pensamento em alvoroço voava longe e sem rumo, e eu não conseguia me situar, não fixava meu pensar em nada. Me sentia morrendo aos poucos como se meu bem-querer se esvaísse ou escorresse pelos vãos dos dedos de minhas mãos calejadas pelas manoplas e manetes da moto, sem hipótese de poder retê-lo.

Voltamos para o hotel. Formigão, como sempre, foi dormir. Aninha e eu ficamos por bom tempo conversando e tomando rum na tampinha da garrafa. Conversa longa e profunda, de tentar espantar fantasmas e demônios, de tirar lágrimas (muitas) de meus olhos.

Na madrugada, Aninha por muito cansada e com sono que estava, foi dormir. Eu fui para meu quarto, voltei para a garagem, zanzei por todo lado mas não me achei. Por fim, extenuado, dormi ou desmaiei. Ah, princesinha...



Dia 16 de maio

Acordamos bem e sem muita pressa, tomamos café numa padaria e, de minha parte, tomei-o apenas por impulso ou por força do hábito. Como o tempo estava muito bom dispensei o uso de uma blusa de fleece e partimos para a lida do dia. Formigão foi à concessionária Suzuki local fazer a revisão de sua Boulevard 800. Aninha e eu voltamos à oficina do Maurício para que sua BMW F 650 GS fosse convenientemente reparada.

Chegando à Tablada a moto da Aninha foi detidamente examinada outra vez, e fomos os dois em minha moto comprar óleo de motor e lâmpada do farol principal para substituição em sua moto, na Paulinho Motos.




Enquanto que o Maurício e seus mecânicos trabalhavam na moto da Aninha, ficamos eu e ela conversando sobre cousas e lousas até que chegaram Ademir e Formigão para nos pegarem para irmos almoçar num restaurante simples que serve comida caseira na BR-293 em Morro Redondo (RS).

Combinamos então com o Maurício que no retorno do almoço voltaríamos para pegar a moto da mineirinha arretada e porreta.

No restaurante já nos aguardavam o Henrique, sua filha Bia, além de mais alguns motociclistas de Pelotas e de Rio Grande. Depois chegaram o Dindo, o Carlão e a Izabel.

    

Quero registrar aqui uma menção especial ao Cláudio Velho, da nossa Irmandade Sem Fronteiras, que mesmo ocupado e sem tempo disponível esteve no restaurante especialmente para nos dar as boas vindas e nos abraçar calorosamente. Gracias, Cláudio.

Foi um rico almoço. Comidinha caseira, cheirosa, saborosa e preparada com carinho e amor. Bem do jeito que a Nanda gosta, ainda maisem Morro Redondo... quantas lembranças boas que me tocam fundo. E voltei a lembrar de todas as coisas de que eu nunca me esqueci.

Nesse restaurante fomos servidos com cortesia, educação, simpatia, simplicidade e carinho. Melhor seria impossível.

    

Depois desse inesquecível almoço ficamos conversando ali por um bom tempo, e depois voltamos à oficina do Maurício, Aninha pegou sua moto e voltamos ao hotel.

Na moto da Aninha foram trocados o óleo de motor e lâmpada do farol principal, consertado o pisca traseiro direito, regulada a marcha lenta do motor e a corrente de transmissão, limpo o filtro de ar, arrumado o descanso lateral e feito reaperto geral. Por tudo isso foram cobrados inacreditáveis R$ 40,00. Pasmem ! Maurício, tu és louco, tchê !

Durante o almoço fizemos uma rápida brain storm e decidimos alterar bastante o plano de voo inicial, evitando assim um retorno a Pelotas (que eu pensava antes que seria maravilhoso, com almoço no Uruguay com a Nanda) após o evento de Dom Pedrito. Naquela altura dos acontecimentos achei melhor passar ao largo da querida Pelotas em nosso retorno.

Decidimos que teríamos nosso almoço no Uruguay de qualquer jeito, comeríamos chivitos com a Nanda ou sem ela, afinal nós merecíamos e quem perderia, como de fato perdeu, foi a Nanda. E também a solidão, o desprezo e a indiferença com que ela me presenteou, eu os transformei em flores para minimizar a tristeza.

Desceríamos até Jaguarão (RS), entraríamos no Uruguay por Rio Branco, iríamos até Melo (Uy) e sairíamos por Aceguá (Uy/RS), indo desaguar no churras da Confraria do Silvério em Bagé (RS) na sexta-feira subsequente.

O Henrique nos convidou para jantarmos em sua casa na companhia de sua querida família, o que aceitamos de pronto.

No final da tarde fomos para o calçadão do centro de Pelotas para que Aninha trocasse uma jaqueta que havia comprado para seu filho Jean, e acabei por comprar também uma boa jaqueta para mim, muito chique e quentinha, já que desde o final do ano passado eu não tinha mais cobertor de orelha.

    
Tomamos um espetacular moccacino e fomos a uma agência dos Correios para que Aninha despachasse algumas peças de roupa para sua casa, aliviando assim a carga e o volume de sua bagagem.

Voltamos ao hotel para começarmos a arrumar nossas tralhas, pois o dia seguinte seria de estrada rumo às terras de Artigas.



Pouco depois das 19:00 h fomos para a casa do Henrique com a finalidade de jantarmos com sua família, e fomos recebidos pelo chefe da casa, por sua esposa Dona Francisca, pelos seus filhos, Bia, Beto e Bianca, pelo seu genro e pela sua netinha Alice, um docinho de coco, linda. Me deu muita vontade de morder suas bochechinhas rosadas.

Conversamos sobre tudo e todos. Jantamos muito bem e nos esbaldamos com um strogonoff de carne de gado especialíssimo, regado a um correto Maipo chileno escolhido com cuidado pelo Beto, meu sommelier preferido. Depois vieram a sobremesa e o cafezinho. Foram verdadeiras delícias que ficaram melhores ainda na companhia sempre agradável da família do Henrique.

Por volta das 22:00 h fomos reconduzidos ao Hotel do Cacalo pela Bia, e dormimos muito cedo para nossos padrões viajores.


Dia 17 de maio

Acordamos bem e espertos. Arrumamos nossas bagagens, pagamos e agradecemos muito ao Cacalo por tudo e fomos ter nosso desjejum. O dia estava bem bom, com temperatura algo amena, céu de brigadeiro e sol maravilhoso, como aliás vinham sendo todos os dias dessa nossa viagem. Nesse quesito estávamos sendo muito privilegiados.

Quando já estávamos de saída o Henrique nos telefonou dizendo que o Diário Popular, um dos jornais da cidade, queria nos entrevistar. Aceitamos de pronto, e o Ademir, sempre o Ademir, nos levou para a redação do jornal.


Depois das entrevistas, que me pareceram fracas, e das fotos, nos despedimos emocionadamente do Henrique e do Ademir, nos encaminhamos para a estrada e paramos num posto de combustíveis na vizinha Capão do Leão (RS). Ainda na porta da redação do jornal, nos foi explicado que não havia muito espaço disponível para a matéria, portanto seria feita apenas uma menção de que nós, por termos importância no cenário motociclístico sulamericano segundo eles, estávamos de passagem por Pelotas. Valeu o registro.

Com as motos reabastecidas seguimos pela rodovia BR-116 para Jaguarão e para a fronteira com a Republica Oriental del Uruguay, num trecho da pampa gaucha que sabidamente me custariam lembranças... muitas lembranças, sonhos desfeitos, a visão dela (sempre) e lágrimas dentro do capacete cor de rosa em homenagem a ela. Eu seguia sem alma, sem coração e sem quereres, pois eu os havia deixado na, agora não mais minha, cidade de Pelotas.

Aos poucos fui sendo invadido por um turbilhão de doces e suaves lembranças de um par de olhos de um azul indizível, de beleza inimaginável como o amor, mergulhados num temporal amazônico que nos molhava até os ossos, enquanto que eu, explodindo de bem estar e de alegria, ouvia a 3 cm de meu capacete um largo e delicioso riso de plena felicidade. Ah, Nanda... será que tu não te dás conta do quanto ainda temos para desfrutarmos e para sermos felizes ? E saibas, bruxinha, que teu riso é a música mais linda que eu já ouvi na vida.

Até Jaguarão a viagem foi tranquila e sem intercorrências dignas de citação, cortando paragens calmas com arroios, sangas e coxinhas esporádicas numa vastidão desolada.

Chegamos na fronteira dentro do tempo previsto, às 12:00 h. Paramos num posto na cabeceira da Ponte Internacional Rio Branco, edificada sobre o rio Jaguarão que desenha a linha de fronteira com o vizinho Uruguay, tiramos fotos e Aninha foi a uma farmácia buscar remédio para cólicas. Ela estava colicada.


    
Por fim, fizemos a travessia da histórica ponte, cuja construção se deu por pagamento pelo Uruguay por uma dívida de guerra contraída com o Brasil por tê-lo defendido de uma tentativa de invasão do então Reino do Prata, atual Argentina.




Estávamos entrando na Banda Oriental, ou Província Cisplatina. Fomos diretamente para a Parrillada Tacuari onde sentamos na mesma mesa (aquela mesa de canto, Nanda. Lembras ?) e comemos de entrada salsa de chimichurry y queso caliente con pan y mantequilla. Como prato principal saboreamos chivitos regados a Zillertal e a Patricia.


Em Rio Branco, especialmente nesse pequeno e agradável restaurante, para mim os chivitos têm um tempero especialíssimo de ternura, carinho, riso, cumplicidade, de olhares apaixonados e sinceros, plenos de felicidade e de amor, ainda que agora a sobremesa tenha um gosto bem amargo.
                         
Descansamos um pouco, posto que havíamos comido muito bem, e fomos fotografar a famosa ponte da beira do rio nas margens uruguayas, e dar um bordejo pelos free shoppings daquela Zona Franca.


Aninha comprou garrafas do legítimo rum Captain Morgan cinta roja, todos compramos chocolates e alfajores negros, e eu comprei uma jarra elétrica para substituir uma outra que eu havia comprado há menos de 1 ano com a Nanda, e que se extraviou num pesado e triste entrevero que, pouco depois, custou minha felicidade e ocasionou o início de minha derrocada sentimental, afetiva e emocional.

  
Daí seguimos pelo início da Ruta 26, reabastecemos as motos, fizemos nossa entradas regulares em la tierra del Peñarol e rumamos para Melo.

Sempre que atravesso a pampa uruguaya adentra em meu ser uma paz e uma calma espiritual indescritíveis, e nessa região totalmente tranquila meus sonhos já descoloridos, minh’alma, meu pensamento, meu querer gasto, meu amor equivocado, minha dor, minha tristeza e minha saudade voam leves por entre as coxinhas e, por puros que são, pousam esperançosos num certo lugar próximo ao Canal São Gonçalo, à Represa Santa Bárbara e não tão distante do Laranjal.

E quando a tarde já não escondia seus estertores, pouco antes de o sol travar sua luta diária com a lua, la pampa uruguaya se revestia de tons, cores e luzes quiméricas, como se fora um sonho louco ou uma trip psicodélica.

Com esse cenário digno de um afresco de Giotto di Bondone, chegamos a Melo. Paramos num almacén, tomamos jugo de pomelo e nos informamos sobre a direção da casa do Turco, amigo-irmão do Ademir.

Quando lá chegamos ele já nos aguardava um tanto agoniado em virtude de termos feito um demorado pit stop de cerca de 4 horas em Rio Branco. Ato contínuo, o Turco levou o Formigão e a Aninha para tentarem em vão comprar capacetes.
                        
Quando voltaram conversamos um pouco e fomos levados pelo Turco ao centro da cidade para procurarmos hotel. Nessa hora Aninha se deu conta de que havia perdido um parafuso da articulação de seu capacete.

Terminamos por nos hospedar no Hotel Virrey Pedro de Melo, bom para os padrões da cidade, pero sin embargo uma mierda,considerando seu custo-benefício. Mas era o que tínhamos para esse dia.

Nos instalamos, tiramos o pouco pó da estrada e o turco veio nos buscar para jantarmos, mas primeiramente baixamos a adrenalina com umas quantas Patricia geladas.
                        

Depois o Turco e sua namorada Grisel nos levaram para jantar no ótimo La Rueda, uma parrillera minha velha conhecida e onde comi muito bem em todas as vezes em que lá estive.

      
O Turco pediu tripas rellenas, Aninha pescado asado con papas al horno, Formigão una milanesa de la casa, e eu raviolis de vegetales y de carne de vacuno. Tudo isso muito bem regado a cervejas. Grisel não quis jantar.

      
Quando chegou o prato do Formigão, distraidamente pensei que haviam colocado diante dele uma lajota colonial ou um tijolo baiano de 20, pois o tal rango era descomunalmente grande. E bota grande nisso. Tratava-se de um bife à milanesa de uns 350 gramas coberto com presunto, queijo, ovos, salada, maionese, batata palha, bacon e outras tranqueiras mais. E acompanhavam ainda batatas fritas. Era tanta coisa junta que deveria ser servido com manual de instruções. Foi uma luta inglória, o Formigão só conseguiu dar conta de meia lajota. Rango 1 X Formigão 0.


   

Depois pedimos sobremesas de salada de frutas com sorvete e torta de chocolate. Para arrematar, um cafezinho meia-boca.

Por fim nos despedimos do Turco e da Grisel agradecendo-lhes muito pela carinhosa acolhida, e retornamos ao hotel. Fomos dormir depois da meia-noite, quando minha carruagem já tinha virado abóbora. Na verdade minha carruagem virara abóbora já desde o final do ano passado, isso se efetivamente algum dia eu estive realmente a bordo dessa carruagem de sonho.



Dia 18 de maio

Outro dia lindo. Acordamos com a luz do sol e com muita preguiça.

Tomamos um café da manhã algo decepcionante, arrumamos nossas bagagens, fechamos a conta do hotel e saímos em direção da Ruta 8, que nos levaria a Aceguá, na fronteira norte do Uruguay.

Contornamos o estádio municipal e nos embrenhamos novamente na pampa uruguaya, que em muitas oportunidades, como agora, sua planura pincelada em vários matizes de verde com coxilhas distribuídas cuidadosamente pela mamãe Natureza e entremeada por arroios e sangas com eventuais capões, alegoricamente me parece assemelhar-se a um plástico bolha desmesuradamente grande.
                                 
Passamos por Isidoro Noblía (Uy) e seguimos numa viagem calma que novamente, ainda que por pouco tempo, me emprestou um pouco de paz interior.

Já em Aceguá paramos no posto da aduana uruguaya, fizemos nossas saídas regulares do país, tiramos fotos e Aninha foi comprar algumas coisas para levar de lembrança para amigos. Eu aproveitei então para tomar um chá-de-rolha preventivo, pois minhas entranhas prenunciavam possíveis desacomodações deletérias.

         
Daí reentramos no Brasil, este país infeliz, e seguimos céleres para Bagé, onde nos encontraríamos com a raça da Irmandade Sem Fronteiras, e seguiríamos todos depois para a Confraria do Silvério, grande parceiro.

Entramos em Bagé, e numa de suas muitas praças perguntei a um motorista, que certamente não deveria ter mãe, onde ficava a praça que abriga o Monumento aos Motociclistas, e ele “muito solícito” nos mandou para o outro lado da cidade. Uma nova informação nos levou à praça certa onde já nos aguardavam alguns dos manos da ISF, tais como o Canibal, o Claudião e esposa, Romácio, Mito, Alejandro e esposa, e outros mais.

    

Descansamos, proseamos muito e depois o Claudião gentilmente nos levou à casa do Silvério, onde funciona a Confraria, e fomos recebidos da forma mais carinhosa possível, como sempre.

Lá ficamos totalmente à vontade. Tomamos providências de ordem prática, lavamos algumas peças de roupa e alguns apetrechos que estavam acondicionados no top case da moto do Formigão, pois uma beberagem da região Nordeste do país que o Quinhones lhe havia dado, abriu-se e melecou muita coisa.



Depois relaxamos muito bem ao som de músicas legais, paguei uma fatura pela Internet, conversamos fiado, contamos causos, falamos mentiras (muitas). E tudo isso após nos livrarmos das pesadas roupas de viagem.

Daí Formigão foi ao mercado comprar rum nacional para tomarmos cuba-libre mais tarde, bem mais tarde. Enquanto isso recebi torpedo do Ademir e liguei de volta a ele. Liguei também ao Picaxú, de Camaquã (RS).

Em Bagé o povo não deve gostar de rum, pois o Formigão foi a dois supermercados grandes e não encontrou nem mesmo uma dose de rum, nem que fosse para remédio.

Para matarmos nossa fome de muitos kilômetros pedimos a um delivery três sandwiches, e quando chegaram pensamos que fossem pizzas, pois mais parecias rodas de lambretta. Foi difícil darmos conta dos maxi-sandubas, e os cães do Silvério fizeram uma boquinha bem boa com o que restou.
                                  
Num dado momento começaram a chegar os manos da ISF, além de outros motociclistas, e a coisa foi melhorando ainda mais. Chegaram a Cê, o Ari Eduardo, a Priscila, o Lasareno, o Pedra Lascada, o Quinhones, o Romácio, o Claudião, e outros. Foi chegando tanta gente que eu não me atreveria a tentar citar aqui todos os nomes, pois certamente me esqueceria de muitos. Sorry, dears. 






Anoiteceu em Bagé e também dentro de mim, mas não deixei a peteca cair e segurei a onda, porque infelicidade cansa. E tratei de comer, de beber, de conversar muito, de matar saudades dos amigos novos e antigos. Tratei de me divertir, até porque tenho total consciência da qualidade do meu amor e da minha dedicação plena à ela, e sei do meu valor como homem.


Foi interessante e curioso quando o Lasareno, vendo minha nova tatuagem, arregalou os olhos e sentenciou: - “Tu és o cara mais verdadeiro que existe ! E corajoso também.”

Como Formigão, Aninha e eu há muito tínhamos decidido que nessa noite dormiríamos em Dom Pedrito, o Lasareno, que não pode ver defunto sem chorar, resolveu ir embora conosco.



E rolava um baita churrascão. Festa muito animada com gente amiga, querida e alegre. Nessa noite a Confraria do Silvério bombou mesmo. Estava muito, muito bom mesmo.


Por volta das 22:00 h nos pilchamos, recolhemos nossas roupas já secas, nos despedimos dos anfitriões e do povo, e às 22:30 h, junto com o Lasareno, nosso 4º mosqueteiro, pegamos estrada para Dom Pedrito.

Noite clara, viagem breve e segura. Às 23:30 h já estávamos sendo recepcionados pelo pessoal da organização do 4º Festival de Motociclistas do município de Dom Pedrito, no recinto do evento, na Praça General Osório, conhecida carinhosamente como a Praça da Caixa D’água. Ali nos reencontramos com muita gente boa e me emocionou sobremaneira reencontrar o Véio Piti e sua esposa Deise.

Acabamos por fechar o evento nessa primeira noite, pois saímos da praça para o hotel às 2:00 h da madrugada fria.

Nos dirigimos ao Gilton Hotel onde havíamos feito reservas, e o Lasareno também conseguiu vaga ali para essa noite, e depois veríamos o que fazer. O hotel era francamente meia-boca, mas até aceitável diante das possibilidades daquele momento, do que se nos apresentava àquela altura.

Desencilhamos as motos, fizemos o check-in, nos instalamos mal e porcamente devidos ao cansaço e ao adiantado da hora, e fomos nanar de forma gostosa.

O município de Dom Pedrito nasceu às margens do rio Santa Maria quando ali se estabeleceu, por volta de 1700, o comerciante espanhol de Biscaia, Pedro Ansuateguy, apelidado de Dom Pedrito. A cidade é cognominada Capital da Paz em virtude de ter sido a sede das tratativas entre Farroupilhas e Forças Imperiais para a pacificação do Rio Grande do Sul. Suas terras férteis garantem a extensa cultura de arroz. É pioneira no cultivo da soja na América Latina, iniciado em 1900. Sua pecuária apresenta alta qualidade genética. Sua terra produz maçãs, azeitonas e suas uvas da região da Campanha dão origem a vinhos nobres. Dom Pedrito tem 140 anos.



Dia 19 de maio

Para quem foi dormir muito tarde até que acordamos cedo, e às 9:00 h tomamos café todos juntos: Lasareno, Aninha, Formigão, Véio Piti, Deise, eu e dois casais de motociclistas de Santa Maria. Logo após nosso desjejum Aninha sentiu e ouviu uma ligeira trovoada oriunda das profundezas de suas entranhas, como se fossem vozes guturais emanadas das catacumbas sombrias de algum cemitério medieval daNorwegian Forest. Imediatamente voltou correndo ao seu quarto e se dirigiu à casinha. O prédio do combalido hotel começou a tremer, e copos e louças do café da manhã barulharam sobre as mesas. Soubemos posteriormente que Aninha, tão pequeninha que é, por ser esotérica, exorcizou um corpo estranho, descomeu um ser disforme, e como se fora um pastor santificado pariu um ser alienígena deletério gritando: - “Sai que este corpo não te pertence !” Aninha ficou 5,4 kg mais leve e aliviada, e neste caso cantou prá descer. (trecho de meu livro inédito “O Tratado da Bosta”).

Depois de tal entrevero intestinal, fomos para o recinto do evento. Enquanto perambulávamos pela praça e por seu entorno fomos reencontrando e conhecendo motociclistas vários.




Fomos visitar a magnífica caixa d’água da cidade, ciceroneados por uma simpática e solícita funcionária da municipalidade. Para fazer boas fotos aventurei-me a subir solito no topo da tal atração turística do lugar e de lá a vista foi realmente compensadora. Por um momento pensei até ter avistado as Grandes Muralhas da China, a Estátua da Liberdade e o chafariz do calçadão de Pelotas. Ou seria o rum ? E de lá de baixo da praça o Romácio e o Quinhones me fotografaram no topo. Valeu muito a pena.


















  



Aninha foi ao caixa automático do seu banco. Eu me sentei num dos bancos da praça e fiquei cismando e pensando sem ter elementos que me possibilitassem qualquer conclusão, ainda que houvessem hipóteses bem aceitáveis e coerentes. Uma lágrima furtiva foi inevitável. Ainda que eu sofra, não finjo jamais.





E fomos almoçar no Cumbuca, um restaurante algo requintado, com pratos bem variados e com ótimo sabor. Ingerimos saladas, massas, pescados e frutos do mar. Loco de especial. Para arrematar esse grude chique que amainou nossa fome de vikings, fui tomar um sorvetão na praça.

Durante o almoço enviei alguns torpedos e recebi mensagens da Thaís, da Mayuí (minhas filhas) e da Nanda. Recebi também telefonema do Picaxú me dando conta de que nos estaria esperando em Camaquã, posto que não poderia chegar a Dom Pedrito por estar de ressaca. Tu pensas que só revolver, buchada de bode azeda, sogra injuriada, mulher braba e governo do PT que matam, Picaxú ? Te cuida, veio.

Depois, na praça, fiquei bem faceiro ao reencontrar o Osmar e o Castrinho, velhos amigos motociclistas queridos de Pelotas. Enquanto isso o pessoal da Irmandade iniciava num canto da praça um competente churrasco de confraternização.



Mais tarde deixamos o Formigão sapeando no meio do povo e do evento e voltamos para o hotel. Aninha e Lasareno foram descansar, e eu fui fazer anotações, ajeitar a barba e me aprontar para a noite, que prometia ser mais que muito boa.

Por volta da hora da Ave-Maria Aninha, Lasareno e eu retornamos à praça onde rolava a efeméride motociclística. Comprei camisetas do evento e ingresso para o jantar de confraternização que aconteceria mais tarde no galpão do CTG Herança Paternal.

Para quem não sabe, CTG significa Centro de Tradições Gauchas, local onde se cultua, se pratica e se propaga a forte tradição pampiana. E aproveito para dizer que Piquete é uma agremiação tradicionalista gaucha aspirante a CTG.

Nisso, Formigão e Véio Piti conseguiram subir ao pavimento intermediário da caixa d’água e de lá tiraram fotos noturnas do evento e da cidade. Chique isso.




Senti a falta do Schutz e do Wagner em Dom Pedrito, e isso me entristeceu, principalmente porque os dois foram minhas companhias mais constantes durante todo o 1º Abraçando o Uruguay. Me entristeceu também não ter reencontrado a Fabrícia, querida e sensível amiga, na terra em que reside, muito embora todos nós da Irmandade já soubéssemos que ela não estaria presente ao evento, posto que ela mesma havia postado essa notícia no fórum do grupo. Mas tive oportunidade de conhecer seu filho, um belo rapagão simpático, afável, educado e querido.

Então fui com o Lasareno a um mercadinho de nome esquisito comprar um bom chileno Concha y Toro cabernet sauvignon reserva especial para, como doublés de sommelier chinelos, degustarmos mais tarde. Compramos até taças de cristal CICA.

Fomos para o jantar no CTG, que estava excelente, com comida campeira, fogo de chão, autênticos gaúchos da campanha pilchados a caráter e um grupo que tocava músicas gauchescas mandando bala em vanerões, xotes, chulas e o cacete. Aproveitando o ensejo, Aninha dançou com Lasareno e como quando não se tem tu vai tu mesmo, dancei um pouco com a esposa do gaiteiro do grupo. Ah, Nanda... como tu terias gostado de tudo isso... e eu teria dançado contigo.












“Quando ero felice accanto a te
Il sole che splendeva daí tuoi occhi
Caldava e pienava tutta l’anima mia
La verità e l’amore che usciva dalla tua bocca
Érano per me la confermazione della esistenza di Dio.
Da quando tu hai buttato via l’amore che ti ho dato
Il fiume d’acqua azzurra che scorreva dentro di me
In un’attimo hà fermato, in un’attimo hà sparito
E la vita mia è diventata veramente vuota
E non mi sono più riuscito a sorridere un’altra volta
Se tu non ritornerai non avrò ne pace più
Cara mia, ti voglio bene e t’amerò per sempre.”

Voltamos para a praça do evento, comprei outra camiseta (não resisti) e também uma pequena bandeira do Estado do Rio Grande do Sul, bordada, que agora encontra-se pendurada em meu quarto de dormir, para que a cada manhã, ao me enganar para sobreviver e levar-me avante, mirando o pendão farroupilha eu possa cantar:

Rio Grande do Sul
O gaucho quer cantar
A querência, o céu azul,
O verdes pampas e o mar

E as mulheres que são belas,
As calmas noites nos rincões,
O céu bordado de estrelas,
Banco de heróis e tradições.

Rio Grande do Sul
Dos prados que não têm fim
Por maior que tu sejas Rio Grande
Caberás sempre dentro de mim.                 
                        
                       (Cesar Oliveira e Rogério Melo)


Ou então:


Rio Grande do Sul
Vou-me embora sem amor
Vou-me embora do Rio Grande
Vou tão só com a minha dor

Levarei as lembranças comigo
De um amor que de olhares nasceu,
De um amor que depressa floriu,
Mas tão cedo morreu.

Rio Grande do Sul
Eu um dia voltarei
Prá rever o Rio Guaíba
Prá rever meu bem-querer

E depois se ela ainda quiser
Só nós dois a sonhar, a sorrir
Rio Grande do Sul
Vou chorar ao partir.                            
                               (Tito Madi)
                         
                    
          

Numa das laterais da praça nos sentamos numas mesas e ficamos conversando alegremente, molhando o verbo com cervejas, vinhos e rum, que empurravam o entulho de umas bolachinhas gostosas que o Canibal havia pego no meio do caminho para Dom Pedrito.
  
Nessa ceia nada santa estavam Canibal, Romeu, Formigão, Lasareno, Aninha, Véio Piti, Deise e eu. E de vez em quando, o Bebê.



    
     
                         

                  

Aninha e Deise foram assistir de perto a banda que tocava naquela hora. Ficaram lá algum tempo, e quando voltaram vieram enroscadas em duas bibas afetadas, relaxadas e detestáveis. E o pior foi que quando esse quarteto non sense chegou na volta das mesas em que estávamos, uma das bibas, de tão bêbada tonteou e caiu bem em cima de mim, sentando capenga em minha perna direita, com direito inclusive a foto desse fato triste. Minha primeira reação foi a de jogar a bicha magra sobre as mesas, mas como o Lasareno não ouviu meu pedido para segurar o vinho e o rum, tive que me conter sob pena de deitar ao chão uma garrafa de Concha y Toro especialíssima e uma ampola do nobre Captain Morgan.

Como a partir desse incidente o ambiente ficou bem desagradável, aproveitei o momento em que o Canibal e o Romeu se retiraram e que o Formigão saiu de fininho, e tratei de voltar sozinho para o hotel e usar meu tempo em coisa mais útil, deixando minhas bagagens ligeiramente arrumadas para o dia seguinte.

O Véio Piti teve que segurar a onda, ficando na praça de babá de sua esposa, da Aninha e das duas bichas loucas, magras e desagregadoras.

Depois soubemos que Aninha foi dormir, ou desmaiou, perto das 5:00 h da manhã.



Dia 20 de maio

Acordamos cedo, tomamos um café reforçado, fechamos as contas do hotel espartano, encilhamos as motos e ficamos horas esperando pela Aninha, que se havia enroscado n’alguma coisa incerta e não sabida.




Creio que foi aí que ocorreu a desaguada involuntária do Formigão. Explico: o vivente estava com a bexiga plena, mas ficou fazendo firula no saguão do hotel. Quando finalmente se dirigiu para o quarto a fim de esvaziar sua bolsa urinária, pensou que o quarto estava chaveado com uma volta, e quando deu por si, faltava uma volta da chave para a porta se abrir, e o pobre, como que numa simulação de incêndio, lavou a porta, o corredor do hotel e inundou seus sapatos. Quase ligamos para o 193...

Por fim a noiva desceu e pudemos sair de Dom Pedrito às 10:30 h, não sem antes fotografarmos o Monumento à Paz Farroupilha na entrada da cidade.
                     
Romeu e Canibal nos aguardavam, havia muito tempo, num posto de combustíveis na saída da cidade. Nos juntamos e seguimos sob céu maravilhoso numa viagem bem calma em 6 motos, a saber: Canibal, Romeu, Aninha, Lasareno, Formigão e eu.

Na altura de Bagé paramos num bolicho bem ajeitado para que o Canibal se comprasse um par de alpargatas feitas de raspa de couro. Chiques, as apargatas.

Seguimos então para a casa do Lasa em Candiota (RS), onde o Picaxú e a Cris já nos aguardavam. Lá chegando a Amália e o Cauê logo nos serviram um bom mate que sorvemos com insuspeito prazer.
                     
Relaxamos numa conversa prá lá de animada de roda de chimarrão, e estar na casa da família do Lasareno é sempre um baita prazer. Na cozinha Amália e eu conversamos meio que ao pé do ouvido sobre coisas do coração (meu), e ela me disse coisas, e o Lasa depois também, que me deixaram com os olhos cheios d’água. Que bom seria se a Nanda lá estivesse para ter ouvido. Como eu amo o Lasa e sua família !


E fomos degustar o almoço delicioso preparado com esmero e muito carinho pela querida Amália. Aliás, comida da Amália é sempre sinônimo de um rango espetacular. Lembras daquela sopa, Nanda ?


Depois demos um tempo à nossa digestão, enquanto que o Canibal e o Romeu partiam para Rio Grande (RS) onde moram.

Pouco mas tarde nos despedimos do Lasa, da Amália e do Cauê com o coração apertado e agradecemos muito a eles pelo carinho com que somos sempre tratados ali, e num bonde formado por Picaxú & Cris, Aninha, Formigão e eu fomos para a casa da família do Picaxú em Camaquã, onde chegamos por volta das 18:00 h, e a Júlia, filha do Picaxú e da Cris nos aguardava com seu sorriso franco.

Mal tiramos nossas roupas de viagem e pusemos roupas leves, Cris foi preparar uma competente lasagna e Aninha, que não pode ver uma fila que já entra, foi fazer um arroz cheiroso, afinal toda mineira pilota muito bem um fogão. Picaxú, Formigão e eu ficamos tomando vinho, mate e cerveja, não necessariamente nessa ordem.




Jogamos muita conversa fora, mas falamos também de coisas sérias, e nesse quesito gosto muito de ter o Picaxú como interlocutor, pois o vivente é de rara lucidez e sempre me fala coisas que me acrescentam algo. Quem o conhece apenas em conversas de roda bagaceira não faz ideia do brilhantismo de suas colocações sagazes.

Jantamos muito bem os pratos feitos pela Cris e pela Ana, acrescidos de uma pizza muito gostosa, temperados por uma prosa agradável e feliz.

Pouco mais tarde, como estivéssemos todos bem cansados pelas muitas variáveis desse dia com muitas emoções no que me dizia respeito, fomos dormir numa noite aberta de temperatura amena, que induzia a um bom e reparador sono.


Dia 21 de maio

Sabedor que eu era de que nesse dia eu sairia do estado do Rio Grande do Sul, apesar de ter dormido bem, me acordei antes do horário costumeiro, bem entristecido e com um aperto no peito.

Tomamos café, conferimos as tralhas e as motos, nos despedimos da família Picaxú com tristeza na alma e pegamos a rodovia BR-116 seguindo no rumo norte.

Paramos na Casa das Cucas na altura de Tapes (RS) num pit stop um tanto longo, talvez até porque inconscientemente eu quisesse protelar, ainda que por pouquíssimo tempo, minha saída das terras de Bento Gonçalves.

Mas prosseguimos, passamos por Porto Alegre, a minha romântica Porto dos Casais, rapidamente. Cruzamos a ponte do Guaíba e tomamos o rumo das praias, seguindo a partir daí pela aristocrática e sempre ótima e segura Free Way.

Chegando a Osório (RS) e reavistando os gigantescos cataventos da Usina Eólica de Osório, me voltou à cabeça a alegoria alucinada que eu já tivera ali em dezembro de 2011, de que tais cataventos eram descomunais moinhos de vento metálicos, e eu era um improvável Don Quixote tardio, pós-moderno e sem graça cavalgando meu Rocinante de aço a lutar inutilmente contra minha tristeza e solidão impostas pela indiferença e pelo desprezo dela. E eu era auxiliado por Formigão e Aninha travestidos de doublés de Sancho Pança.

Em Osório, onde começa (ou termina) a Free Way, entramos na Estrada do Mar, que liga Osório a Torres (RS), para que Aninha conhecesse essa estrada e também a famosa Tenda do Pelé, já no município de Torres.

Na Tenda do Pelé fizemos uma boa boquinha, pois a característica principal do lugar, além da insuspeita simpatia de todos que lá trabalham, é que quando o vivente chega ali lhe são ofertadas amostras de vários queijos e embutidos que por si só já arrefecem a fome. Quanto a sucos e garapa, pede-se um copo e eles servem uma jarra (a preço de um copo). É fantástico. Além disso, Aninha pediu pastel de carne e queijo, o glutão do Formigão um de palmito e um de banana, e eu um de camarão (nota 7). Saímos de lá satisfeitos, pois cada um dos dois tomou uma jarra de suco e eu uma de garapa.

De buchos cheios prosseguimos pelo acesso a Torres e entramos na rodovia BR-101 na Vila São João, e seguimos no rumo norte. Cruzamos a ponte sobre o Rio Mampituba, que nesse trecho materializa a divisa entre os estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, e o vazio que me invadiu só não era maior porque era vazio.

Em outras épocas meu sentimento ao cruzar essa divisa era de saudade só até voltar, de tristeza por sair da querência da mulher que amo e de ansiedade para chegar logo a hora de voltar a ter em meus braços novamente aquela que continua sendo a minha vida, meu tudo.

Mas agora, depois do ocorrido, eu já não tinha vontade de ficar, de ir, de voltar, de parar, ou de seguir. Eram um sentimento e uma sensação inexplicáveis, pois meu coração, minh’alma, meu querer e minha vida tinham ficado para sempre na região da fronteira sul da pampa gaucha. É, princesinha... serei um eterno aprendiz do teu amor. Porém...

“No hay bella melodia
En que no surjas tu
Ni yo quiero escucharla
Si no la escuchas tu
Es que te has convertido
En parte de mi alma
Ya nada me consuela
Si no estas tu tambien
Mas alla de tus labios
Del sol y las estrellas
Contigo en la distancia
Amada mia, estoy.”
            (César Portillo de la Luz)
Apesar de estar morto por dentro e de não estar ligando para mais nada, não baixei a bola e segurei firme o timão. Seguimos firmes pela estrada porque não queríamos chegar tarde na casa do Verani & Nelci em São José (SC).

Ainda em Osório eu tinha enviado torpedos a alguns dos amigos gaúchos dos quais tenho o número de telefone na memória de meu celular, e também para Dona Waldéria, pessoa por quem tenho grande carinho e a quem admiro e respeito muito. Porém, suspeito que ela não tenha tido acesso à minha mensagem, mas valeu da mesma forma porque o que lhe escrevi foi do fundo do meu coração.




Fizemos uma parada extraordinária a apenas 10 km de São José por absoluta necessidade causada pelo stress do tráfego trancadíssimo da Grande Florianópolis (SC), por ter anoitecido e termos tido que limpar as viseiras de nossos capacetes da meleca provocada pelos muitos insetos, e por precisarmos desaguar com urgência.

E chegamos no Verani pouco antes das 19:00 h com muita vontade de confraternizar com este grande motociclista, grande parceiro e amigo de fé.

Daí desaceleramos, baixamos a adrenalina, matamos saudades dos nossos anfitriões e danamos a conversar sobre assuntos vários.

Logo depois tiramos o pó da estrada, telefonamos ao Gau que reside na vizinha Palhoça (SC) para que fosse ter conosco, mas ele estava chegando a Atibaia (SP) junto com o Marcelo Japonês. Marcamos então com ambos de nos encontrarmos no Churrasquinho Mú em São Paulo (SP) na quarta-feira subsequente, dia 23 de maio, para uma cachaçada.

Será bom registrar aqui que a rodovia BR-101, no seu trecho entre Araranguá (SC) e Imbituba (SC), está um caos, uma verdadeira merda.

Conversamos mais um bom tanto, e em meio ao bate-papo ecumênico, filosófico, conceitual, psicoanalítico, e motociclístico recebi ligações do Ademir, do Picaxú e da Thaís, minha filha mais velha.



Então fomos jantar o rango muito especial preparado pela Nelci, como sempre saborosíssimo, e com direito inclusive a churrascão. Bom demais !

Aninha e Formigão foram dormir enquanto que o Verani e eu ficamos assistindo da sacada dos fundos de sua casa, de camarote, a queima de fogos do encerramento da Festa do Divino Espírito Santo de São José. Bonito espetáculo.

E finalmente fui curtir o sono dos justos, ainda que eu possa não ser um deles.


Dia 22 de maio

Na manhã serena de sol manso e luzidio acordamos calmamente, arrumamos (de novo) nossos panos de bunda, demos nossas barrigadas da alvorada para equilibrarmos a pressão intra-corpórea, tomamos um excelente café da manhã na ótima companhia da Nelci e do Verani, nosso cyborg preferido, tivemos mais um dedinho de prosa, nos despedimos da Nelci que ia trabalhar (afinal, alguém precisa trabalhar nessa bagaça) e traçamos nosso plano de voo final (ou quase).

Iríamos seguir para a terra dos Bandeirantes. Dormiríamos em Registro, no Vale do Ribeira (SP), e no dia seguinte chegaríamos à cidade de São Paulo indo diretamente para as Bocas de Moto, no centro, para que o Formigão desse andamento à solução do problema de sua roupa de viagem e para que Aninha comprasse um capacete novo para si.

Nos despedimos do Verani já com saudades, fomos para a estrada, a mesma rodovia BR-101, e continuamos com a proa para o Norte com tempo muito bom. Viajávamos na tranquilidade e na segurança das pistas duplas e na paz de Deus.

Fizemos um pit stop técnico em Joinville (SC) e outro a cerca de 15 km do acesso à Estrada da Graciosa, já no Estado do Paraná. Foi quando destrambelhei geral e propus à raça outra mudança de planos que me pareceu assaz interessante. Como a resposta foi positiva, jogamos para o alto a ida às Bocas de Moto em São Paulo e giramos nossa bússola para o Leste, seguindo para Morretes (PR).

Embicamos na secular, imperial, linda, charmosa, romântica e deslumbrante Estrada da Graciosa (PR-410) e a descemos como manda a liturgia, calmamente e ao sabor de suas infindáveis curvas acentuadíssimas, a maioria delas com calçamento em lajotas tão antigas quanto a saudade.

Tais curvas eram tantas e tão fechadas em cotovelo que finalmente decorei o número da placa de minha moto de tanto ver a rabeta da dita cuja.

Por fim chegamos à velha Morretes imperial, cortada pelo calmo, límpido e quimérico rio Nhundiaquara, formado pelos rios Mãe Catira e São João. A propósito, “nhundiaquara” significa em tupi-guarani, “buraco do peixe”.


Aninha estava embevecida e sem palavras com tudo que havia visto na descida da Serra da Graciosa e com o que estava vendo na cidadezinha acolhedora. Numa pracinha beira-rio, onde alguns garotos falavam sobre a plantação de uma certa erva na casa do primo de um deles, Aninha disse-nos algo com que concordo plenamente: - “Essa cidade gracinha é prá se namorar.”

Formigão, come di solito, estava zen e também muito feliz. De minha parte eu estava bem por adorar a aura de Morretes, e meu romantismo estava à flor da pele. Ah, minha bruxinha, minha princesinha... para que dar uma de durão e negar ? Me foi impossível conhecer-te impunemente, e definitivamente te amo por inteiro e para sempre.

Relaxamos um pouco os corpos e as almas à beira do Nhundiaquara e fomos para a Pousada Trilha da Serra, do amigo Márcio.



Baixamos a adrenalina com tira-gostos de queijos e presunto com pickles regado a cervejas enquanto criávamos coragem para nos instalarmos e para o jantar, que seria uma apoteose para essa nossa viagem tão rica em sensações e em sentimentos profundos, de grande significação no que concerne à alma humana.

Nesse ínterim me ligou o Márcio Mello dando conta de que estava em São Vicente (SP), e se colocando à nossa disposição para o que precisássemos naquela área. Obrigado, Márcio.




No limiar da noite o romantismo de Morretes tomou conta totalmente de mim, e então meu querer exacerbou-se. Inevitavelmente meus olhos brilharam d’água. Tive ímpetos de lançar mão de meu celular xing-ling e ligar ou enviar mensagem a ela, mas recordando sua recente fuga de mim, me contive. Chegava já de implorar. Mas mesmo assim, cacete... como eu a amo.
           
              

Depois de havermos eliminado o ranço da estrada e de termos deixado nossos ninhos em ordem para o sono que certamente viria avassalador após o jantar, saímos para um bordejo noturno na histórica cidadezinha incrustada no sopé da Serra do Mar, e chegamos ao Restaurante Serra e Mar para deglutirmos com totais prazer e vontade o tradicionalíssimo barreado, prato típico morretense carregado de história.

Abrimos os trabalhos daquela noite com cachaça de banana e vinho da casa. Aninha, fiel, preferiu cerveja.

De repente, do nada, Formigão impostou a voz e declarou solenemente, qual tenor interpretando a ópera Ainda, de Verdi : - “Tudo é uma questão de hermenêutica !” Concordei totalmente com ele, fosse lá o que ele tinha querido dizer. Motociclismo é, também, cultura.

Pedimos por fim o barreado acompanhado de frutos do mar, ainda que eu nunca tenha visto um pé de mariscos ou de polvos. Além do barreado propriamente dito, que é uma carne cozida por 12 horas em panela lacrada com barro, daí o seu nome, e adicionada de farinha a gosto, nos foram servidos arroz, salada, macarrão, berinjela, pão, peixe frito, peixe cozido, mariscos, polvo, camarão refogado ao molho, camarão frito, banana frita e cozida, e mais algumas coisas que me fogem à lembrança agora.

Comemos tudo de tudo e muito. Nos fartamos verdadeiramente. Para arrematar pedi bananas à milanesa com canela e um pote de sorvete, of course.

Resumindo, o barreado completo com frutos do mar é uma mistura acertada de tudo com muita coisa.

Voltamos ao hotel calmamente a pé, até porque de outra forma nos seria impossível àquela altura. Logo Formigão foi dormir e fiquei conversando um pouco com a Aninha. Quando ela foi dormir, fiquei solito no refeitório da pousada fazendo algumas anotações e decidindo comigo mesmo uma questão de alta indagação.

Depois, bem depois, como me habituei a dormir somente por volta das 2:00 h da madrugada por ficar esperando inutilmente por um certo telefonema sob a cortesia da mamãe TIM, fiquei cismando um pouco sobre a importância cabal da hermenêutica em minha vida e fui dormir com a lua alta.


Dia 23 de maio

Acordamos cedo, mas com a calma dos anjos, pois devidos ao sereno forte da noite e à neblina da madrugada, houvemos por bem aguardar um pouco para pegarmos estrada, para que o calçamento secular e escorregadio da Estrada da Graciosa no miolo da serra, que subiríamos para atingirmos a rodovia Regis Bittencourt (BR-116), secasse ao menos um pouco porque não queríamos incorrer em quedas evitáveis.

Tivemos um desjejum razoavelmente bom, traçamos mais uma alteração de plano de voo para que não tivéssemos que atravessar a cidade de São Paulo no sentido Leste-Oeste no início ou meio da tarde, nos aliviamos com barrigadas prazerosas, fechamos nossas contas e saímos de Morretes pouco antes das 10:00 h.

Iniciamos a subida da Estrada da Graciosa com muita calma e com renovados espanto e encantamento.

Fizemos duas ou três paradas para fotos porque ao longo dessa estrada, que para mim é a mais linda de todo nosso país sem comando, o visual é espetacular, e muitas vezes de tirar o fôlego.





Redesenhando as curvas alucinantes com as rodas de nossas lambretas, pudemos conferir as matrículas de cada uma das nossas semoventes.




A Estrada e a Ferrovia da Graciosa, que estão em meio a Quatro Barras (PR), Morretes, Paranaguá (PR) e Antonina (PR), cortam a região onde se localiza o que restou de Mata Atlântica no Estado do Paraná, e hoje sua população e os grupos de preservação defendem com unhas, alma e dentes sua preservação e manutenção. Parabéns ao povo paranaense.

Por fim atingimos a BR-116 e seguimos por ela no rumo Norte numa viagem tranquila e sem nada que justificasse menção, malgrado seu excessivo tráfego de caminhões. Apenas um adendo nesse trecho: Aninha estava irritadiça por conta da sua TPM, mas segurava a onda com galhardia.

Entre Embú das Artes (SP) e Taboão da Serra (SP) entramos no Rodoanel de São Paulo. Para evitarmos a cidade de São Paulo, como já dito retro, seguimos até o final do Rodoanel e passamos a rodar por estradas vicinais, com visuais ora dantescos ora lindos, sem meio termo. Tais estradazinhas nos levaram a Caieiras (SP), Franco da Rocha (SP) e Mairiporã (SP), onde entramos na rodovia Fernão Dias (BR-381) e por ela seguimos no rumo Sul. Depois de exatos 23 km através da BR-381, chegamos a Guarulhos (SP) e à minha moradia no Parque Cecap.

Enquanto eu levava toda minha tralha de estrada para o apartamento, Aninha e Formigão relaxaram com umas quantas Devassa, e começaram a se aprontar para irmos ao Churrasquinho Mú mais tarde.

Por fim tomei um banho demorado, me pilchei e fomos nos encontrar com amigos motociclistas porretas no famoso Mú.

Lá chegando, já nos aguardavam Gau, Marcelo Japonês, Márcio Mello, Clau, Juça Bala, Clóvis, Wandeis e outros mais. Comemos kafta, queijo de coalho, maminha e truta com alcaparras e batatas ao molho de chimichurry, tudo preparado com esmero, competência e carinho pelo Zé. Nessa oportunidade não poderíamos deixar de comemorar com o legítimo rum Captain Morgan. Evidentemente Aninha foi de cerveja. Mais tarde chegou o Gilmar, e foi tudo muito, muito bom.

Voltamos para casa, falamos mal de alguns poucos e fomos dormir.


Dia 24 de maio

Acordamos tarde e para completar Aninha e Formigão arrumaram suas bagagens preguiçosamente. Quando estava tudo pronto na garagem, Aninha detectou um possível vazamento de combustível em sua moto, e teve que desfazer quase que toda a arrumação das suas bagagens para ter acesso à parte de baixo do banco.

Vimos que não era nada grave e que por hora o vazamento cessaria, mas assim que possível ela teria que substituir uma das mangueiras de combustível.

Fomos todos tomar café da manhã quase na hora do almoço num posto na rodovia Ayrton Senna SP-070, por onde a dupla dinâmica seguiria viagem até seus lares.

Depois eles reabasteceram suas motos, nos despedimos quase que sem palavras, tomados que estávamos pela emoção forte, e eu os comboiei até o primeiro trevo de retorno na altura de Santa Izabel (SP).

De lá os dois seguiram juntos até o final do complexo das rodovias Ayrton Senna/Carvalho Pinto, entraram na Rodovia Presidente Dutra (BR-116) e seguiram pelo Vale do Paraíba (SP) até a cidade de Volta Redonda (RJ). De lá Formigão seguiu pela mesma estrada até a Ilha do Governador (RJ) e Aninha subiu para Juiz de Fora (MG) pela rodovia BR-040 depois de ter passado por Três Rios (RJ). E os dois chegaram muito bem, satisfeitos, felizes e foram muito bem recepcionados em suas jurisdições. Eu voltei para minha casa triste e só, muito só.

Queremos agradecer a todos e a cada um que tornou essa nossa viagem melhor, aos que nos encontraram pelo caminho, aos que nos auxiliaram e nos recepcionaram em suas cidades, e a todos que nos sorriram, nos abraçaram e nos beijaram. Gracias !

Agradecemos principalmente a Deus, e por que não à Yamaha, à Suzuki e à BMW por fabricarem motos quase que totalmente confiáveis ?

Agradecimento meu mais que especial à Aninha e ao Formigão, pois sem a companhia deles me teria sido muito difícil rodar todas essas léguas com o coração e a alma no estaleiro, arrebentados. Obrigado por entenderem tão bem o amor que sinto por ela, e por compreenderem minha tristeza e meu, por vezes, alheamento. Vocês são parceiros verdadeiramente de fé, e sou um privilegiado por privar da sólida amizade, do carinho e do amor de vocês. Gracias, muchisimas gracias !


Beijo em todos e até a próxima.



                                                                    Marcão, em 20 de junho de 2.012.



P.S.- Na estrada, nessa viagem, lembrei-me de uma frase que adotarei para minha vida a partir de agora: “ Não trate com prioridade quem te trata como opção.” Portanto...






















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O 1º Abraçando o Uruguay
(ou De Como o Rio Grande e o Uruguay estão Dentro de Mim)

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E foi numa reunião ecumênico-filosófico-estético-musical-etílica e motociclística em casa de Aninha e Flavinho, um casal pedra 90, em Juiz de Fora (MG), por volta do final de outubro, que fiz formalmente o convite ao Formigão, grande parceiro de estradas e copos, para me acompanhar à fronteira sul deste país infeliz com o fim precípuo de participarmos de um evento motociclístico internacional interessante e sui generis, o 1º Abraçando o Uruguay, promovido pela Irmandade Sem Fronteiras, cuja equivalente no Uruguay e na Argentina é la Hermandad Sin Fronteras.

Naquela altura eu já havia sido convidado para esse evento pelo grande motociclista e parceiro prá qualquer parada Paulo Canibal, integrante do M.C. Pica Paus do Asfalto de Rio Grande (RS), e conselheiro local da Irmandade Sem Fronteiras.

Formigão de pronto aceitou meu convite, e a partir disso bastou acertarmos os ponteiros e fazermos a sintonia fina de datas e roteiro básico, que incluiria no retorno a travessia de parte do Rio Grande do Sul pela Estrada do Inferno (BR-101), que liga São José do Norte (RS) a Osório (RS).

Marcamos então nossa saída de Guarulhos (SP) para o dia 27 de novembro, dia de Nossa Senhora das Graças, padroeira dos motociclistas.

Dias antes da nossa partida fiz a revisão dos 25 mil km de minha moto, substituí sua transmissão secundária e decidi que seus pneus durariam (ou teriam que durar) pelo menos mais 5 mil km, até meu retorno do Uruguay para Guarulhos por absoluta falta de plata, por supuesto.

No dia 26 de novembro, um sábado nada especial, enquanto Formigão percorria os pouco mais de 430 km entre a Ilha do Governador (RJ) e Guarulhos, arrumei minhas bagagens, encilhei a moto, lubrifiquei sua corrente, preparei meu já combalido coração e passei a aguardar o horário de ir recepcionar o Formigão na vizinha Itaquaquecetuba (SP), conhecida carinhosamente por Itaquá.

Pouco depois das 13 h Formigão chegou ao posto de combustíveis na Rodovia Ayrton Senna (SP-070), que já se tornou nosso tradicional ponto de encontro, e depois de efusivos abraços e beijos, tivemos um repasto frugal a título de almoço, no restaurante do próprio posto.


Após contarmos um ao outro algumas mentiras novas como sobremesa, nos dirigimos ao meu bunker no Parque Cecap, na nada querida Guarulhos.

Em casa e já devidamente instalado, Formigão tirou a poeira (pouca) da estrada e passamos a conversar asneiras em profusão. É impressionante como apenas duas pessoas podem conversar tanto e não dizerem nada...

Depois Formigão se refestelou seminu e prazerosamente se entregou aos braços de Morfeu, ou seja, hibernou e roncou feito uma porca velha.

Quando a tarde perdia sua luta inútil para a noite, sabedores de que motociclista fino é outra coisa, passamos a degustar presunto Parma, salame italiano, queijo Gruyere y otras cositas más, regados pelo legítimo rum Captain Morgan que entremeamos com ampolas de cervejas Patricia e Patagonia.

Com a noite pega, jantamos uma competente pizza calzone de muzzarela de búfala malhada, rúcula e tomate seco al pesto. Chique, muito chique. Depois, por volta da 1:00 h dell’alba, fomos dormir, pois acordaríamos muito cedo para darmos nosso start nessa viagem que já me deixava ansioso e angustiado.

No dia 27 de novembro, domingão, acordamos às 5:00 h objetivando sairmos às 6:00 h, e estávamos com as caras mais amassadas que chinelo de gordo em face das nada desprezíveis quantidades de líquidos etílicos que havíamos sorvido na noite anterior. Ainda assim estávamos mais espertos que lambari de sanga, e mais faceiros que guri de bombachas novas. Partimos enfim em nossas motos mais carregadas que caminhão de gringo.

Na noite anterior havia chovido muuuuuuito, porém o dia amanheceu bacana e saímos ao romper da aurora com o vislumbre de um dia sem chuvas.

Iniciamos nosso trajeto pela Rodovia Presidente Dutra (BR-116) e às 6:30 h já estávamos no final do Rodoanel de São Paulo, e entrando na Rodovia Regis Bittencourt (BR-116) que nos levaria a Curitiba (PR).

A viagem transcorria sem novidades dignas de nota até que em Miracatú, no Vale do Ribeira (SP), paramos para reabastecimento e mijadinhas, e fomos obrigados a permanecer mais de hora parados, pois a chuva que ali caía era uma grandeza, uma pororoca amazônica.

Prosseguimos depois já com chuva domável no rumo Sul, e em Garuva (SC), em meio a um trecho tranqüilo, fomos brindados de chofre com uma borrasca diluviana. Como não tínhamos onde nos proteger, e tentar parar no acostamento naquelas condições climáticas, caso o enxergássemos, seria uma temeridade, seguimos assim mesmo num vôo cego preocupante. Todos os veículos que ali trafegavam, pararam no acostamento por precaução porque a visibilidade tendia a zero. Até por medida de segurança prosseguimos singrando as águas pluviais bravias em velocidade reduzida.

Os ventos eram tão fortes que as águas nos atingiam de lado e não de cima, entrando entre a base do capacete e a gola da jaqueta. Em dado momento até vi o velho Noé e sua arca zoológica parados no acostamento e nos acenando, mas logramos êxito em prosseguir até Joinville (SC), onde ancoramos para reabastecimento.

Nessa altura, como se fora mágica, o céu começou a se abrir e a limpar, e daí tudo melhorou, como se naquele céu Moisés estivesse a reeditar a célebre abertura do Mar Vermelho para o êxodo egípcio. Muito interessante. Pensei até ter lido n’algum lugar, numa tábua, “Não cobiçar a mulher do próximo quando o próximo estiver próximo”. Teriam sido as Tábuas da Lei com alguma jurisprudência cafajeste inserida ?

E chegamos à maison Verani em São José (SC) inteiros e bem molhados. Baixamos a adrenalina com umas quantas cervejas que regaram bons tira-gostos. Tiramos depois o mofo rançoso da viagem aquática e falamos (muito) mal dos ausentes. Jantamos muita pizza (non è vero, Verani ?) e celebramos a vida, o encontro, os amigos queridos, nossas viagens, nossos amores e minha tristeza. Depois, rapidamente para a cama.

Ainda me doía muito o desamor, e como me dói, andava e ainda ando tristonho, mas eu acreditava que essa viagem pudesse ser qual um divisor de águas em minha vida. O importante era que eu estava bem na medida do possível, estava na companhia de amigos porretas e sabia e sei que a estrada é meu caminho e minha eterna busca de mim mesmo. Além disso, ir ao Uruguay sempre me faz muito bem, e aprendi com as Primaveras a me deixar cortar para voltar inteiro.

A propósito, o Verani estava recém operado, tendo sido submetido a uma cirurgia de implantação de prótese de joelho. Coisa bem delicada. Ele não diz, mas sei que lhe implantaram na verdade uma espécie de junta homocinética sideral de última geração desenvolvida pela NASA em provas de Fórmula 1, com teto solar, computador de bordo, GPS, controle de tração, cd player, banco reclinável e outros bichos. Com essa, o Verani já sofreu 471,6 cirurgias ortopédicas, e dá mais trabalho à sua esposa Nelci que tordilho bravo laçado por peão novo. Ele é o nosso Robocop, nosso querido Cyborg.


No dia 28 de novembro, após um desjejum delicioso preparado com esmero e carinho pela Nelci, nos despedimos do casal mais querido da bela e Santa Catarina, e saímos de São José com tempo meia-boca, mas afortunadamente sem chuva.

Entramos logo na BR-101 e seguimos no rumo Sul com tráfego bem acima da média. Dentro de mim já havia certo frisson, pois eu já prenunciava minha grande emoção quando reentrasse na capital dos gaúchos, e revisse e rodasse por seus meandros. A cada acelerada de minha destra mão, meu coração já combalido por batalhas tantas e emoções várias, respondia mais desassossegado e ansioso.

O trecho sul catarinense da BR-101, mais exatamente entre Palhoça (SC) e Sombrio (SC), está efetivamente de pura adrenalina, com desvios abruptos, mal feitos e mal sinalizados, o que torna a travessia desse tramo uma aventura incerta e por isso mesmo interessantíssima. É um pedaço de estrada mais perigoso que buchada de bode azeda. A propósito desse trecho e do trecho de pista simples na Serra do Cafezal no sul de São Paulo, Formigão e eu nos tornamos os reis do acostamento e não havia mais para nós ultrapassagens demoradas ou difíceis, e pela esquerda ou pelo acostamento era só acelerar. Amamos muito tudo isso ! Coisa boa.

Fizemos um primeiro reabastecimento em Maracajá (SC) e ali pensamos equivocadamente que a continuação do trecho para esse dia seria debaixo de chuva, mas felizmente nos enganamos no espaço e no tempo, e acabamos descendo para o Sul pouco depois de a chuva ter caído. Afinal, motociclista tem que ter, também, sorte.

Pensando em nos dar mais segurança o Verani nos aconselhara a fazer o trecho entre Torres (RS) e Osório (RS) pela Estrada do Mar, paralela à BR-101 e um pouquinho mais próxima à orla do mar, mas como nesse tramo a BR-101 já está toda duplicada, não vimos necessidade de irmos por uma estrada que tem mais pardais que as árvores da cidade de São Paulo.

Assim, continuamos a trilhar nossa rota pré-estabelecida mais animados que china em dia de pagamento da peonada da obra.

Em Osório paramos apenas o tempo necessário e suficiente para reabastecimento, mijadinhas, reposição de líquido, um cigarro do Formigão, e ato contínuo entramos triunfalmente na bela e sempre majestosa Free Way, uma das melhores estradas por onde já tive a ventura de passar.


Ao avistar ao longe os imensos cataventos do Complexo da Usina Eólica da C.E.E.E. em Osório, divaguei alegoricamente vendo-os como se fossem moinhos de vento futuristas, e pilotando minha moto eu era um improvável Don Quixote pós-moderno a cavalgar seu Rocinante de aço e a lutar inutilmente em defesa da minha utópica felicidade que a enganar nunca me vem verdadeiramente. E ao meu lado, Formigão era um doublé de Sancho Pança. E daí me invadiu uma puta tristeza quase que palpável, mas prossegui sem me abalar.


Os kilômetros finais foram de uma viagem algo monótona e sem nada de extraordinário, com tempo excelente e céu de brigadeiro (até que enfim). Entramos na aristocrática e muito querida Porto Alegre, indo diretamente para a residência do João Vargas e filhas, que nos aguardavam e nos recepcionaram, como de hábito, condignamente.

Ah... Porto Alegre... de tanto querer-te, roubo-te e faço-te minha. Tu que tens o amor, a união e a chegança em tua essência, no cerne de tua fundação. Tu que foste a Porto dos Casais. Tu que sempre me recebes em teu seio com total carinho e me abraças com tuas alamedas seculares, e me passeias por teus belos parques e praças. Tu que tens o condão de acalmares minh’alma sofrida e de confortares meu sobressaltado coração. E em tua noite, tuas luzes mornas e românticas me viajam o pensamento e o sonho, me trazendo suaves lembranças, e me tomas em teu colo manso e me fazes ninar. Eu precisava mesmo estar em ti para beber da tua ternura, para te chorar minhas mágoas, minhas tristezas e te dizer da minha imensa solidão, assim tu me ficas sabendo por inteiro. E por fim te digo que é impossível conhecer-te impunemente.

Para desacelerarmos, conversamos muuuuuito, falamos de dores e de amores molhando o verbo com cervejas (muitas) e cuba-libre de rum Bacardi Carta Oro ao sabor de petiscos vários. Foi quase que um tsunami alcoólico. Aliás, é bom que se registre que este nosso início de 1º Abraçando o Uruguay estava se tornando um festival da cachaça, uma orgia hepática sem final. Mas que gente que bebe...


Como estávamos empenhados em matar saudades, tomamos pé por alto dos desdobramentos do Caso Prado e fomos jantar no Garcia’s Grill, um restaurante e churrascaria de primeiríssima linha. Muito bom, ainda mais que estávamos em ótimas companhias.


Retornamos ao apartamento do João Vargas, o povo foi se deitar, e eu fiquei discutindo com o teclado do computador do João para poder mandar aos amigos (muitos) e aos inimigos (um pouco menos) um sinal de fumaça e dar sinal de vida.                                     

Depois fui dormir também, visando um sono reparador para estar tinindo para o trecho do dia seguinte, quando seguiríamos para a região da fronteira Sul.

Dia 29 de novembro, uma terça-feira que amanheceu com tempo loco de especial, acordamos bem cedo, mas o João Vargas já havia saído para levar a Paloma, sua filha mais nova, para o colégio e depois iria lecionar na UFRGS. E o João se esqueceu de nos dar o caminho das pedras para sairmos de Porto Alegre sem bater cabeça, e de deixar à vista o vidro de café solúvel para o Formigão.

Esperamos que a Touanda, primogênita do João, acordasse para nos despedirmos dela e para que não deixássemos a porta do apartamento aberta ao sairmos. Descemos, pegamos informações com o porteiro do prédio e saímos na fresca manhã porto alegrense.

Antes de partirmos, tentamos encontrar um lugar onde pudéssemos tomar um cafezinho que fosse, mas como era longe demais, desisti e o Formigão foi à luta empurrado por seu vício, pois tem muita necessidade matinal dessa beberagem. Encontrou um café muito do meia-boca e gentilmente me trouxe meio café. Como ele havia se esquecido da carteira, o salvou uma moeda que estava esquecida no bolso das suas calças, e assim pode comprar apenas 1 café. Então tomei um cafezinho de meia pataca. Motociclista pobre é uma merda.

Como eu tinha certa noção do caminho a ser percorrido para atingirmos a BR-116 na saída Sul da cidade, fui meio que tateando e obtivemos êxito quase que sem errarmos nada.

Logo em Eldorado do Sul (RS) paramos para reabastecimento das motos. Prosseguimos no rumo Sul e pouco depois o Formigão parou no acostamento por ter dado falta da sua inseparável máquina fotográfica. Ele revirou sua bagagem por umas 11,7 vezes, e a encontrou escondida num cantinho, agachadinha na mala traseira.

Tenho prá mim eu essa pobre máquina fotográfica se escondeu por pura estafa, por não agüentar mais o dedo nervoso do Formigão, que tira fotos até do vento.

Daí seguimos numa viagem tranqüila por uma estrada de conservação bem razoável e de trânsito leve. Nesse tramo a única ocorrência digna de nota foi termos sido atropelados por um enxame de abelhas ou de marimbondos. Foi um matraquear metralhadorístico bem sonoro e diferente que nos melecou as motos, roupas e capacetes.

Fizemos um pit stop técnico na localidade de Cristal (RS) para darmos conta ao Henrique de que estávamos chegando e aproveitamos para reabastecermos as motos e repormos líquido após desaguarmos fartamente. O Henrique me disse que convocara o Ademir para nos recepcionar no posto da Polícia Rodoviária Federal de Pelotas (RS).

Eu não fazia a menor idéia do que sentiria e que reação eu teria ao voltar a Pelotas depois dos recentes acontecimentos pessoais meus. Os kilômetros foram passando por debaixo de nossas motos, e uma incerteza e uma angústia foram se acercando de mim, meu coração passou a pulsar forte e desordenadamente aos sobressaltos numa freqüência incerta. Sentimentos e lembranças me invadiram o peito e me tomaram todo. Ao tempo em que acelerava a moto, minha respiração se tornava algo ofegante e me passou pela mente agora confusa e turva, o sonho improvável de reencontrar a Nanda em alguma esquina da cidade. Meu Deus, que falta dilacerante ela me faz ! Lembrei-me de uma frase do Caderno H do Mário Quintana, grande literato gaucho, que diz que uma vida não basta ser apenas vivida, também precisa ser sonhada. E o que me restava agora era sonhar...

Chegando ao ponto de encontro definido pelo Henrique, fomos recebidos com abraços e beijos efusivos do querido amigo Ademir, grande motociclista, que nos recepcionou, como já era de se esperar, dignamente com uma cuia de mate que sorvemos com insuspeito prazer, enquanto matávamos saudades e conversávamos sobre cousas e lousas.


Depois o Ademir nos conduziu ao rancho do Zé Luiz onde já nos aguardavam o Henrique, o Dindo, o dono do rancho e outros mais. Tivemos uma boa prosa de encurtar distâncias e almoçamos anchovas (enchovas, ou ainda enxovias) assadas, que haviam sido buscadas em Rio Grande (RS) especialmente para o almoço de nossa recepção. Esse pessoal é mesmo muito carinhos e receptivo. Complementando o repasto havia arroz e saladas. De sobremesa nos foi servido arroz com laranja, delícia cuja origem remonta ao início do século passado. Esse almoço esteve es-tu-pen-do ! E na companhia de amigos queridos tudo fica melhor temperado e saboroso. È... meu pessoal de Pelotas é mesmo gente da melhor qualidade.

 

E para lavar toda louça que esse bando sujou para se fartar de um rango tão especial, preparado e servido com tanto carinho, o Henrique usou seu novo modelito fashion.

 
 
Quando passamos defronte ao Tourist e ao Grude, meus olhos já cansados de ver se encheram d’água e não consegui mais conter o pranto. Me foi difícil prosseguir pilotando a moto. E digo que na estrada que habita em mim, eu arrincono e medito.

Depois de baixarmos o bolo alimentar falando mal de muita gente, como estivéssemos próximos do local, antes de sermos levados para o hotel fomos até o Fragata, um bairro da cidade, para que eu tratasse de um assunto de foro íntimo viabilizando um ato de carinho para a Nanda e sua mãe, que demorou menos de meia hora. E fazia um calor absurdo ! Havia sobre a cidade um sol para cada habitante.

Do Fragata o Ademir nos capitaneou até o Hotel do Cacalo no centro da cidade, na Andrade Neves, entre a Tiradentes e a Teles. O Cacalo é também um motociclista e nos recebeu muito bem, até nos serviu um bom chimarrão e nos fez um precinho bacana.

Notei que o Hotel do Cacalo ficava bem defronte à Funerária Carvalho. Caso eu viesse a sucumbir de tristeza e desamor, os serviços e paramentos fúnebres já estariam à mão, e o Formigão e meus amigos locais não teriam o menor trabalho com minhas exéquias.

Baixamos as bagagens, vestimos roupas leves, o Formigão foi com o Ademir até o Manivela solucionar um problema de ajuste da suspensão traseira de sua moto, e fui a pé até a Av. Bento Gonçalves encaminhar o complemento daquele assunto particular cuja primeira parte eu havia resolvido no Fragata. Entre ida e vinda foram 22 quadras atravessando todo o calçadão do centro da cidade por duas vezes. Isso dá a medida de quão importante me era e ainda me é esse assunto.

Um pouco antes de sair conversei com o Cacalo que me ensinou o caminho para eu chegar de moto até a Av. Bento Gonçalves, ao Posto do Guga e de lá até a oficina do Bolinha. E o Cacalo me contou coisas interessantes e preocupantes acerca de meu algoz local.
Depois disso, só me restaria repetir a célebre frase em latim supostamente proferida por Júlio César ao tomar a decisão de cruzar com suas legiões o rio Rubicão, que delimitava a divisa entre a Gália Cisalpina (Gália ao sul dos Alpes, que hoje corresponde ao território do norte da Península Itálica) e o território da Itália: “Alea jacta est “. Não está morto quem peleia.
Quando retornei ao Hotel do Cacalo, Formigão e Ademir já haviam voltado e o Formigão estava feliz da vida porque rapidamente o Manivela havia substituido o link de apoio do amortecedor traseiro de sua Ténérézinha, deixando a moto na altura ideal para a compleição física dele.

Então o Ademir se despediu, foi embora e nós fomos tirar a poeira do asfalto saboreando algumas cervejas Antarctica Sub Zero na esquina da Tiradentes com a General Osório, perto da casa do Henrique.

Passamos depois na loja Moda Pé – Ferracini, na Praça 7 de Julho, onde compramos dois pares de meias e o Formigão um par de sapatos muito confortáveis, que pareciam tenis, ou vice-versa.

Daí voltamos ao hotel, desfizemos as malas, armamos acampamento, tiramos o cansaço do corpo e resolvemos que não sairíamos à noite para podermos dar uma boa relaxada.

Então fui escrever um pouco, pois além da estrada, minha pena a desenhar frases, a chorar versos desencontrados e desconexos revelam minhas múltiplas feridas e cicatrizes interiores, e inutilmente tentam purgar minhas tristezas, mágoas e dores, e transformam em texto os muitos espinhos da minha árida solidão.

E sem que eu me desse conta, Pelotas anoiteceu, e com o frescor da noite me revisitaram doces lembranças de uma amarga realidade, e em cada estrela que cintilava no céu do Sul eu via o brilho dos olhos dela, a Nanda.

E em meu entorpecimento quase insano quisera ser o elfo que mora nas flores para, sabedor dos segredos afetivos da alma humana, penetrar fundo no coração da Nanda e com delicadeza, cuidado, carinho e ternura depositar ali o pólen do meu amor.

Tenho uma profunda relação de amor e, agora, de tristeza, com essa cidade. Além de ter nela muitos amigos sinceros, em Pelotas vivi a plenitude do amor e agora vivia a angústia, o desassossego, a tristeza e a solidão da perda.

Bem tarde, falei bastante por telefone com a Nanda e fui dormir depois da 1:30 h da madrugada. E o Formigão roncando...
Pelotas está localizada a 250 km da capital, sendo uma das principais cidades do Estado e ponto de referência no sul do Rio Grande do Sul. Seu nome é originário das embarcações utilizadas pelos primeiros colonizadores - padres jesuítas, portugueses e espanhóis - para transitarem pelo rio que cruza a cidade, hoje conhecido como Pelotas. Um intenso e próspero negócio surgiu: as charqueadas, onde a carne era salgada e exposta ao sol para durar bastante tempo. Este próspero negócio foi trazido para o Rio Grande do Sul por um português proveniente do Ceará, José Pinto Martins, que estabeleceu-se às margens do rio Pelotas. Em 7 de julho de 1812, a cidade foi fundada. Tornou-se rica e próspera, sendo rota obrigatória de atividades culturais. A herança dos portugueses pode ser encontrada na arquitetura local, nas ruas, culinária e cultura. A principal atividade do município é o comércio, que atrai moradores de todas cidades vizinhas. Em Pelotas existe um grande número de estabelecimentos comerciais e empresas de prestação de serviços. É pólo industrial na confecção de doces artesanais e sua qualidade e sabor são nacionalmente conhecidos e difundidos através da Fenadoce - Feira Nacional do Doce, que acontece todos os anos no mês de junho.
Acordamos cedo de bobeira numa quarta-feira que casualmente caiu no dia 30 de novembro, dia do aniversário da Mayuí, minha filha mais nova, e aproveitamos o tempo para colocarmos em ordem nossas bagagens.

Mandei um torpedo para a Mayuí cumprimentando-a e parabenizando-a pelo seu 32º aniversário. Isso era importante.

Após nossas invariáveis barrigadas matinais, fomos ter o desjejum numa padaria na esquina da Andrade Neves com a Dom Pedro II, e para poder comer um pão na chapa tive que ensinar a atendente a fazê-lo, pois por aquelas bandas só se faz o pão prensado, semelhante mas não tão gostoso.

O dia amanhecera nubladão, fechou geral e a chuva ensopou a Capital Nacional do Doce com vontade e determinação. Formigão foi mesmo debaixo d’água levar sua moto para a revisão dos 5 mil km na Eletromotos, para não perder a garantia.

A propósito de temporais e de outras intempéries, a região de fronteira do Rio Grande do Sul de forma geral, e Pelotas e Rio Grande em particular, têm o clima mais hostil aos motociclistas que já conheci no Brasil. Isso devida à proximidade com grandes espelhos d’água como a Lagoa dos Patos, que em verdade trata-se de uma laguna, a Lagoa Mirim e o Oceano Atlântico, cumulados com fortes ventos da pampa gaucha. Pior só na Patagonia.

Enquanto aguardava o parceiro fiquei escrevendo, pensando na Nanda e conversando com o Cacalo alternadamente. Por volta das 10:00 h Formigão retornou da concessionária Yamaha local.

Parou de chover e saimos caminhando para fotografarmos a bela Catedral do Redentor da Igreja Anglicana do Brasil, situada a pouco mais de 1 quadra do hotel.

Logo depois voltou a chover muito, o que em Pelotas é redundância, e aproveitei então para usar minhas novas meias de hidroginástica. Nada mais apropriado. Só faltava mesmo trocar nossas motos por jet skis.

Falei com o Henrique, que nos convidou para jantarmos em sua casa, e marquei nosso ponto de encontro com o Canibal, que viria com um grupo de motociclistas de Rio Grande na manhã seguinte, no Posto Fortaleza em Capão do Leão (RS).

Daí chegou para nos conhecer e nos dar as boas vindas o Claudião, membro da Irmandade Sem Fronteiras, um caboclo muito solícito, simpático, agradável e prestativo. Ele nos levou para almoçar no Vó Percília que tem o melhor gnocchi da região, e fica na esquina da Bento Gonçalves com a Marechal Deodoro.

Do restaurante fomos à casa do Claudião e Evelise, onde descansamos um pouco, pegamos camisetas do 1º Abraçando o Uruguay, ganhamos adesivos, conversamos bastante e depois fomos até a oficina do Gil, na minha opinião o melhor mecânico de motos da região da fronteira sul do Brasil.

Tenho muito aprêço pelo Gil, pelos seus irmão e pelo seu pai, parceiro de chimarrão e de boas e longas prosas, e fiz questão de dar um forte abraço nessa gente boa. Aproveitamos a proximidade e passamos depois na Paulinho Motos.

De lá fomos para a Eletromotos, concessionária Yamaha local, onde o Formigão pegou sua moto já revisada e lavada.

Então fomos para a Taipa Seguros, na Marcílio Dias defronte ao Colégio Municipal Pelotense, para providenciarmos as apólices do Seguro Carta Verde, obrigatório para se trafegar com veículos automotores nos países do MERCOSUL.

Voltamos ao hotel, o Claudião foi cuidar da vida, o Formigão foi aos camelôs e eu fui escrever um pouco mais. Depois saí e fui regular a corrente da moto no Bolinha. Conversei um pouco com ele, dei ciência da minha presença na cidade para que meu algoz declarado soubesse disso, e fui visitar meus grandes e queridos amigos Dona Lucy e Sr. Walter Salazar. Fiquei bem faceiro ao revê-los, e mais ainda por saber que o Sr. Salazar tinha recém completado 90 anos. Não é para qualquer mortal. Para comemorarmos dignamente, saboreamos bolo de Pelotas com café preto. Bom isso. Não é, Nanda ?

Voltei ao hotel, dei um jeito nas bagagens e relaxei um pouco pensando, de novo e ainda, na minha incompetência em ser feliz. Na boca da noite Formigão e eu atendemos prazerosamente ao convite feito pelo Henrique e fomos jantar em sua casa com ele e sua linda família. E por não ser tão distante, fomos caminhando.

Lá chegando, contamos um pouco de lorotas e mentiras, falamos mal comedidamente dos ausentes, petiscamos muito com o auxílio enológico e luxuoso de um legítimo Reservado Concha y Toro escolhido com acerto pelo Beto, filho do Henrique, e jantamos nababescamente uma ótima comida caseira preparada a 4 mãos pela Dona Francisca e pelo Henrique.

Masi tarde o Henrique e o Beto gentilmente nos levaram de volta ao hotel. Foi mesmo muito bom me sentir novamente em família. Obrigado, Henrique.

Na noite fria e linda fiquei ainda cismando na sacada do quarto do hotel. A noite estava tão fria quanto as recentes atitudes da Nanda para comigo, e novamente as estrelas cintilavam no firmamento como seus lindos olhos, que olhavam para um lugar qualquer me ignorando totalmente.

Falei novamente por telefone com a Nanda e fui dormir com um gosto amargo de fracasso e de incompetência na boca. Mas amanhã seria um outro dia e seguiríamos viagem.

Dia 1º de dezembro, quinta-feira. Acordamos cedo, arrumamos nossas bagagens, encilhamos as motos, fomos tomar café e passamos a aguardar o Claudião, que viria ao nosso encontro para que juntos fôssemos ao ponto de encontro do pessoal da Irmandade Sem Fronteiras, que como já citei, seria no Posto Fortaleza em Capão do Leão.

Amanheceu um dia lindo e muito frio, tão lindo e tão frio quanto agora estavam os olhos dela. E o céuzão era de brigadeiro.

Por fim o Claudião foi nos buscar, reabastecemos as motos e fomos para o ponto de encontro onde a raça já nos aguardava. Lá estavam o Canibal e o pessoal de Rio Grande. Também se juntaram ao comboio, além de mim e do Formigão, alguns motociclistas de Pelotas.

Saímos pela BR-116 no sentido de Jaguarão (RS). Ah... Jaguarão... E logo após entramos à direita na BR-293 e seguimos para o Oeste no sentido de Bagé (RS) e Dom Pedrito (RS). Pegamos a estrada com um baita vento de fazer subir bem alto pandorga (pipa) grande. Estava brabo.

Que sensação estranha e difícil de controlar senti ao deixar Pelotas... Uma enxurrada de sentimentos e de sensações desconexos. Mas levei comigo e ainda trago no peito uma esperança desesperançada, como que uma tentativa inútil de não me afundar de vez, de tentar me manter na tona.

Ao passarmos pelo entroncamento para Morro Redondo (RS) e depois Piratini (RS), a 1ª capital da República Rio Grandense, as recentes e doces lembranças se avivaram dentro de mim e ficou difícil prosseguir, muito difícil. Mas mesmo assim acelerei firme.

Ao pararmos para reabastecimento e desaguadas em Candiota (RS), meu peito entrou novamente em alvoroço e um total desassossego se assomou. Até senti de novo o gosto da sopa da Amália na casa do Lasareno ao pé do fogão de lenha, e lembrei-me muito bem de como eu estava feliz. Daí não teve mais jeito, e chorei mesmo dentro do capacete.

Paramos novamente para um pit stop técnico-mijatório e cafezístico em Dom Pedrito (RS), e de lá seguimos até o entroncamento da BR-293 com a BR-158, entramos à esquerda na segunda e seguimos no rumo Sul visando nosso destino para esse dia.

Já em Santana do Livramento (RS), o Kojak, amigão e parceiro de Ushuaia, nos aguardava no posto da Polícia Rodoviária Federal. Fizemos ali muita festa pelo nosso reencontro e seguimos todos juntos para Rivera (Uy) para baixarmos a adrenalina com a imprescindível colaboração de algumas Patricias geladas, além de sandwiches e petiscos.

De lá fomos até a aduana uruguaya cambiar algum dinheiro e providenciar nossos vistos de entrada naquele país hermano, com o fim precípuo de adiantarmos nosso expediente para o dia seguinte.

Depois fomos ao CTG (Centro de Tradições Gauchas) Sinuelo do Caverá, onde aconteceria o jantar de confraternização e de início oficial do 1º Abraçando o Uruguay, e alguns já ficaram ali para acampar.

De lá o Kojak nos levou para o Hotel Comodoro em Livramento, que mais me pareceu um motel, e eu dormindo com o Formigão talvez até rolasse um clima... Mas até que o hotel era bem razoável.

Eu fiquei desfazendo minhas malas prá tentar descobrir onde eu tinha posto as calças leves, e o Formigão foi aos free shoppings de Rivera comprar tranqueiras. Tomei um bom banho prá minimizar a ziquizira (ou ziquezira, como querem alguns), e fiquei já pronto para o jantar, enquanto aguardava o retorno do Formigão e a chegada do Kojak. Aproveitei para fazer algumas anotações.

Registro aqui que a BR-293 corta uma região de fronteira da pampa gaucha, por demais desolada, e cada vez que a atravesso, para que a angústia e a pré-depressão não me invadam a alma, busco algum alento, tento pensar em algo bom. Desafortunadamente, por estar em meio a um inverno emocional e afetivo, por mais que eu tentasse não encontraria lenitivo algum e só conseguia pensar na Nanda. Eta viagenzinha difícil !

Formigão chegou, se aprontou com toda calma que lhe é peculiar, e o Kojak chegou para nos conduzir ao CTG Sinuelo do Caverá, onde o grupo todo se reuniu para o jantar campeiro, e para o briefing da descida da raça para Montevideo (Uy) no dia seguinte.

O jantar esteve ótimo, todo o pessoal que nos recepcionou e o grupo de motociclistas foram muito simpáticos e carinhosos para conosco, pois de certa forma o Formigão e eu éramos uma espécie de atração do início do evento por termos ido de longe. Recebemos até algumas homenagens e elogios.

Durante o jantar o Canibal presenteou a mim e ao Formigão com camisetas do M.C. Pica Paus do Asfalto, com adesivos, com folders turísticos da cidade de Rio Grande e com duas garrafas da autêntica Jurupiga, ou Jeropiga, que é uma bebida típica da Ilha dos Marinheiros em Rio Grande, fabricada artesanalmente pelos antigos habitantes portugueses da ilha. Seus descendentes ainda hoje mantém intactas as características dessa deliciosa bebida, que é feita de sumo de uvas e álcool na proporção de 20% e envelhecida em bordalesas por um período mínimo de 3 meses, e sua fabricação permanece caseira. A propósito, bordalesa é um barril ou tonel de vinho de Bordéus, região da França mais conhecida pelo nome galego de Bordeaux.

A noite estava linda e o céu tinha mais estrelas que farda de ditador de republiqueta latino-americana. E os olhos dela brotavam de cada estrela, como que a me perscrutarem a alma.

Não muito tarde fomos dormir, saindo em pequenos grupos de motociclistas.

Acordamos bem cedo no dia 02 de dezembro, sexta-feira, pois a concentração para a largada oficial do 1º Abraçando o Uruguay rumo a Montevideo, seria às 7:30 h na Praça Internacional, na fronteira entre o Brasil e o Uruguay.

Apesar de frio, o dia surgiu primoroso, lindo, mais aberto que comporta de hidrelétrica na época das cheias. E a Mamãe Natureza pendurou um sol espetacular no lado do Nascente.

Arrumamos as bagagens nas motos e tratamos de ir logo para a concentração. Lá chegando, rapidamente iniciamos de forma oficial o percurso do evento, e fomos conduzidos no início do trajeto por batedores motociclistas da polícia uruguaya. Saímos cruzando o centro de Rivera a caminho da Ruta 5 que nos levaria ao destino desse dia. E foi, para dizer pouco, emocionante e contagiante.

Na Ruta 5 paramos para demorados abastecimentos em Tacuarembó (Uy), Paso de Los Toros (Uy) e Florida. No pit stop de Tacuarembó tomei um saboroso mocaccino e me apropriei da bonita caneca para presentear a Nanda num tempo futuro, pois ela gosta de tomar muito café preto, talvez para tentar ficar um pouco moreninha.

Em Paso de Los Toros furou o pneu da moto do Otto, e para solucionar o problema dos sapato traseiro de sua Harley, ele resolveu ficar naquela cidade e se locomover para o evento no Cerro apenas no dia seguinte.                                         

No meio do caminho afrouxou o esterco de alguns, e o grupo, por absoluta necessidade fisiológica, teve que ser dividido em dois. Do grupo de fechamento, que era o grupo dos cagões ou obradores, alguns integrantes foram aos pés, descomeram adubando satisfatoriamente o solo verde uruguayo.                   

Durante todo o trajeto até Montevideo, a cada entroncamento de cidade ou pueblo, a polícia uruguaya esteve posicionada ao longo da ruta com a finalidade de nos dar segurança e de nos facilitar a passagem. Efetivamente, a polícia uruguaya merece cumprimentos e aplausos, pois agiram da forma que todo cidadão almeja que a polícia de seu país se comporte no trato com seus patrícios e com os estrangeiros.

Já nas cercanias de Montevideo fomos recepcionados por integrantes de la Hermandad Sin Fronteras, que estavam há tempo nos aguardando, e de forma muito carinhosa nos comboiaram até o Cerro, onde fomos cumprimentados condignamente, e de forma afetuosa e emocionante.

No Cerro relaxamos com milanesas, tortas fritas empanadas, fainá, Patricias geladas e doses de rum Captain Morgan. Conversamos muito sobre tudo e todos, cantei alguns boleros e foi uma confraternização geral, um só coração. E Formigão e eu fomos convidados pelo casal anfitrião, Jesol e Dona Lidia, para ficarmos hospedados em sua casa. Gracias, hermanos. Muy amables.

O Carlito nos levou para conhecermos o cimo do Cerro, onde há uma linda e muito bem preservada fortaleza que remonta ao Século XVIII. Fantástica ! Maravilhosa vista com a Montevideo de Artigas a nossos pés.

O Cerro é o monte que originou o nome Montevideo. Ele é o sexto monte a Oeste que os navegadores avistam quando adentram o Estuário do Rio da Prata. Na época das Grandes Navegações, os cartógrafos das esquadras identificavam o Cerro como Monte VI (seis em algarismos romanos) de O (oeste), daí o nome Monte VI de O. Motociclismo é, também, cultura.

Bem mais tarde fomos levados pelo casal Jesol e Dona Lidia para sua casa. Depois de um bom banho jantamos pizza com fainá, hecha con harina de garbanzo (farinha de grão de bico). Depois fomos dormir cansados e satisfeitos com o grande prazer de estarmos novamente no querido Uruguay.

No dia 03 de dezembro acordamos cedo, tiramos o ranço do dia anterior, tomamos café, arrumamos as motos e fomos para o Cerro. Lá chegando, o Canibal me presenteou com outra camiseta do M.C. Pica Paus do Asfalto para a Nanda, e aproveitamos para acertarmos nosso retorno com um pessoal de Rio Grande, encabeçados pelo Cláudio Velho.

O pessoal que cuida da sede dos moteros de Montevideo no Cerro, foi muito simpático e gentil para comigo me presenteando com uma embalagem de fainá. Muchisimas gracias, queridos.

Saímos do Cerro e fomos para a concentração geral de motociclistas brasileiros, uruguayos e argentinos na Playa del Cerro, enquanto que o Formigão foi dar uma barrigada extemporânea.

Iniciamos o passeio por toda Montevideo, que foi de fazer pulsar mais forte o coração, num dia majestoso, e numa cidade linda e acolhedora.                                                                                         

Demos uma grande volta por toda a capital del MERCOSUR guiados e protegidos por batedores motociclistas da polícia uruguaya. Fizemos uma parada na região portuária da cidade e fomos ao Mercado del Puerto, ponto turístico tradicional, onde Fabrícia e eu tomamos inadvertidamente um vinho caríssimo que pensamos fosse para degustação pública. Pedimos desculpas e saímos à francesa. Aproveitei e comprei luvas forradas de pele e camisetas.

Continuamos o passeio passando por toda a Rambla (orla do Estuário do Prata), na parte nobre da cidade. Fizemos o pit stop alimentar no belo Parque Rodó, e almoçamos no Rodelu. Evidentemente saboreamos chivitos (quanta lembrança...) regados a Zillertal bem gelada.

Depois boa parte do povo retornou a seus hotéis e nós fomos com mais alguns para o parque do Centro de Protección de Choferes, onde rolaria a 1ª Motocena Sin Fronteras, un asado solidário, beneficente.

Enquanto descansávamos e aguardávamos o início do rega-bofes, mudamos os planos iniciais de nosso retorno e resolvemos que provavelmente a raça dormiria no Chuí (RS), pois seria um trecho com muitas paradas para fotos e compras nos free shoppings da fronteira. Para o grupo todo poderia ser uma loucura tentar chegar no próprio domingo em Pelotas e Rio Grande, atravessando o Banhado do Taim.

Ainda de tarde o Formigão teve que atravessar a cidade para voltar ao Cerro, pois havia deixado lá sua jaqueta de viagem.

Por fim teve início a 1ª Motocena Solidária muito animadamente, com direito até a um DJ competente que pilotava com maestria sua parafernália eletrônica.

Mandamos bala no rum Captain Morgan entremeando-o com cervejas Patricia, enquanto fazíamos fisioterapia e RPG nos maxilares destroçando fartos nacos de costela e lingüiça com pão, salada e chimichurri. E a conversa brotava de nossas bocas aos borbotões. E o Canibal, o Vagner, o Schutz e a Fabrícia sempre a nos fazer companhia

Em dado momento o Canibal deu um verdadeiro show entoando músicas em sua gaita de boca. Tocou até um baita tango para que um casal de vovôs gracinhas bailassem com desenvoltura. Grande Canibal !

Em meio a um comovente discurso bilíngüe feito pelo Romácio, orador oficial do 1º Abraçando o Uruguay, fomos homenageados com troféus e diplomas. Ficamos muito felizes e agradecidos.

E tive a ventura de poder conversar bastante com a Fabrícia Pimentinha, uma motociclista de Dom Pedrito (RS), que fez com que meu evento e minha noite melhorassem muito, diminuindo o grande vazio dentro de mim. Obrigado, Fabrícia.

Lá pelas tantas, como o Jesol e Dona Lidia precisariam permanecer ainda por longas horas no Centro de Protección de Choferes, uma de suas filhas fez a gentileza de nos conduzir até sua casa para podermos dormir. Que cansaço gostoso !

Dia 04 de dezembro, domingo de sol para aquecer o coração das aniversariantes desse dia de Santa Bárbara, que no sincretismo religioso da Umbanda corresponde a Iansã, título que Oyá recebeu de Xangô. Iansã é a mãe do entardecer. Aniversariavam Nanda, sua mãe Dona Waldéria e Fátima. Parabéns, Nanda querida ! Parabéns, Dona Waldéria ! Parabéns, Fátima !

Acordamos muito cedo para refazermos nossas bagagens e encilharmos mais uma vez as motos. Saímos e mais uma vez fomos guiados pelos incansáveis Jesol e Dona Lidia até o Cerro, de onde partiria parte do Bonde do Retorno.

Sem muita demora saímos comboiados pelo casal Jesol e Dona Lidia até a Av. 18 de Julio no coração de Montevideo, e paramos defronte ao Hotel Lancaster onde o restante do Bonde do Retorno nos aguardava.

Nos despedimos emocionadamente de nossos anfitriões Jesol e Dona Lidia, e num bonde de mais de 20 motos seguimos pela Av. 18 de Julio e Av. Italia até entrarmos na Ruta 1-B através da qual seguimos no rumo Nordeste, no sentido de Maldonado (Uy).

Quando nos encontramos com amigos motociclistas inventamos um mundo melhor.

Durante o trajeto, como eram muitas motos, parte do grupo se desgarrava e mais à frente se juntava de novo. Isso era bom porque quebrava a monotonia de se viajar por estradas tão boas num país tão calmo.

Em Punta Ballena (Uy), o primeiro grupo, do qual eu fazia parte, resolveu seguir em frente sem esperar pelos demais, mas eu fiquei aguardando o segundo grupo chegar. A partir disso a viagem se tornou mais relaxada.

E ali em Punta Ballena fizemos uma longa seção de fotos, e compramos algumas lembrancinhas de artesãos locais. Comprei um colar lindo de hematita para a Nanda. Punta Ballena é mesmo um local lindíssimo.

Seguimos então para a majestosa e aristocrática Punta del Este, onde houve outra longa seção de fotos, e paramos ali também para reabastecimento. No monumento intitulado “La Mano”, em que o artista chileno Mário Irarrázabal faz referência aos afogados e que foi esculpido durante o verão de 1982, enquanto ele participava do primeiro Encontro Anual Internacional de Escultura Moderna ao Ar Livre, nessa cidade, a seção de fotos foi exageradamente grande, inclusive com direito a tombos involuntários meus e de outros caminhando rapidamente de botas sobre a areia fofa.

Prosseguimos em grupo no sentido Norte e, de repente, após cruzarmos a charmosa ponte de La Barra, ficamos em apenas duas motos, o Romácio com seu filho Jr. na garupa e eu. Os outros haviam sumido. Em Manantiales (Uy), no entroncamento da Ruta Interbalneária com a Ruta 103, esperamos pelo grupo por mais de meia hora, e como não viesse, seguimos pela Ruta 103 no rumo Oeste em direção da Ruta 9.

Ao chegarmos ao seu entroncamento, vimos o nosso grupo passando na nossa frente na Ruta 9. Se tivéssemos marcado encontro não teria dado tão certo. Seguimos então todos juntos e paramos em Rocha (Uy) para reabastecimento geral e irrestrito, hidratação interna e mijadinhas aliviantes.

Chegamos no Chuy (Uy) e aguardamos alguns retardatários (de novo) na aduana uruguaya.

Na cidade de Chuí nos hospedamos no mais que razoável Firper Hotel. Para não perdermos muito tempo por conta de eu precisar tentar resolver certa parada em outra localidade, fomos direto para os free shoppings onde compramos algumas bobagens e, principalmente, um carregamento do autêntico rum Captain Morgan red stripe. O Mito, que estava no carro de apoio, nos fez a especial gentileza de levar as duas caixas de rum, mas não sabíamos ainda como faríamos para levar prá casa, cada um, 12 ampolas do precioso néctar em motos pequenas e já carregadas.

A partir disso eu estava entrando em off por um curto espaço de tempo.

Na segunda-feira, dia 05 de dezembro, o bonde saiu do Chuí sem pressa, mas com algum tumulto, pois parte do grupo seguiu na frente com o Claudião, que não podia desligar a moto por estar sem partida, e caso a mesma morresse ou fosse desligada, seria uma nova e pesada função para o super Vagner e sua intrépida HD.

O Canibal falou que o Formigão sumiu na hora da partida, e que o pessoal foi abastecer e retornou para procurá-lo. O reencontraram entrando no posto para reabastecimento, e ele contou que havia feito um segundo tempo de barrigada. Eta homem para obrar !

Então o segundo bonde entrou na BR-471 e seguiu no rumo Norte a caminho de Rio Grande, e volta e meia se reencontrava com o bonde da moto podre, que havia saído antes.

Na Quinta (RS) os dois bondes se reagruparam em parte para despedidas gerais e emocionadas.

Ainda que tarde, cheguei também a Rio Grande, e o querido Canibal nos hospedou em sua casa de forma gentilíssima. Ficamos muito bem instalados e muito à vontade. Certamente incomodamos bastante o Canibal, sua esposa Marta, seu filho Fabiano e sua cadelinha Docinho, que se apaixonou por mim e eu por ela. Amor à primeira lambida.

Muito embora cansados, ainda houve tempo para um breve tour pela cidade de Rio Grande, a mais antiga do estado do Rio Grande do Sul, fundada em 1737 pelo Brigadeiro José da Silva Pais, e elevada, com substancial ajuda de Francisco Xavier Ferreira, à condição de cidade em 27 de junho de 1835, ano em que o coronel da guarda nacional Bento Gonçalves iniciou a Revolução Farroupilha.

Tivemos um excelente jantar caseiro preparado com muito carinho pela Dona Marta, e na oportunidade o Canibal nos presenteou com toalhas tecnológicas que são excelentes para nós, os viajantes inveterados.

Quando, cansados, fomos dormir, eu estava com febre. Tomara não perdurasse até a manhã do dia seguinte.

Uma informação curiosa: tanto em Rio Grande como em Pelotas, há tantas farmácias que até me pareceu que há uma para cada habitante. Mas isso certamente é por conta do clima terrível dessa região com variações abruptas de humor, muitos ventos e forte umidade.

No dia 06 de dezembro, terça-feira, acordamos às 6:00 h e rapidamente arrumamos as tralhas nas motos e prendemos bem as caixas de rum sobre o banco do garupa para que não houvessem surpresas, posto que não poderíamos nos dar ao luxo de as ditas garrafas se quebrarem. Depois de lubrificarmos as correntes de transmissão das motos, fomos para o Porto de Rio Grande para embarcarmos na balsa que nos levaria à São José do Norte (RS), e que sairia pontualmente às 7:00 h.

Havia chovido fortemente a noite inteirinha, e no amanhecer o tempo estava ainda melecado, porém...

Durante a travessia através do canal de ligação da Laguna dos Patos com o Oceano Atlântico, choveu um pouco, mas apenas uma garoa forte de molhar bobo. Na balsa conhecemos dois motociclistas de Torres (RS), o Zé Justo e o Maurício, que estavam terminando uma volta por todo o Estado onde nasceram.

Desembarcamos e iniciamos o trecho da Estrada do Inferno, que é o início da BR-101, em 4 motos e nos pareceu que a estrada estava boa, mas ali nos aguardava escondida, depois de uma curva impessoal, uma chuva bem forte e nervosa.

Paramos em Mostardas (RS) para reabastecimento e café, e para isso tivemos que entrar na cidade. Na Padaria Estrela defronte ao posto de combustíveis tomamos café com pão cervejinha. Muito bom, gostei dessa novidade de pão cervejinha. Deve ser próprio para curar ressacas.

Quando estávamos retomando a viagem, voltou a cair uma chuvinha chata, e o tempo estava cavernoso.

Seguimos, e acima de Mostardas fizemos um trecho de exatos 64 km de buracos, fissuras e crateras com 5 trechos curtos sem capa asfáltica, mas nada que gerasse preocupação.

Na altura de Tavares (RS) a chuva cessou totalmente e o tempo passou a nos mostrar uma cara menos feia.

Quando chegamos a Osório o tempo já estava até aceitável. Reabastecemos as motos, relaxamos um pouco, telefonei ao Cassola, e como ele estivesse em Tramandaí (RS), resolvemos prossegui até Sombrio (SC), posto que ainda era cedo e seria muito bom adiantarmos o trecho para o dia seguinte, Liguei também para o Verani para dizer-lhe que não mais pernoitaríamos em sua casa, pois havíamos redividido nossas etapas finais de viagem. E a Nelci, muito atenciosa, já havia até feito nossas camas. Desculpe-nos, Nelci. Desculpe-nos, Verani. We are so sorry, dears.

Quando passávamos novamente pelo Complexo da Usina Eólica da C.E.E.E. em Osório, sem que eu me desse conta, me voltou à cabeça aquela alegoria de Don Quixote, com a diferença de que, desta feita, eu estava acompanhado de 3 doublés de Sancho Pança, o Formigão, o Zé Justo e o Maurício. Haja escudeiro ! E sem que se possa fazer conexão com esse meu desvario mental, concluí que sou mesmo um eterno aprendiz.

Formigão acendeu outro cigarro (só prá variar), e desta vez, por algum motivo incerto ou indecifrável, fiquei observando-o, e percebi que esse vivente carioca, quando fuma, fica mais sério que porco urinando.

Eu estava saindo do Rio Grande do Sul, e mais do que nunca eu deixava nessa terra meu coração, minh’alma e minha vida enfim. Saía da pampa gaucha vazio, triste, desencantado e sem perspectivas de voltar a ser feliz, ao menos num futuro próximo. Deixava eu em cada palmo do fértil e dadivoso solo rio grandense um pedacinho dos meus mais sublimes sentimentos, e também uma lágrima chorada para que esse solo abençoado permaneça dando sempre grandes safras de amor, compreensão, ternura, companheirismo, carinho e tudo mais de bom que sempre recebi quando de minhas passagens e estadas nesse que foi o único Estado na nação tupiniquim a brigar para continuar fazendo parte da Federação. E tomara que na terra de Bento Gonçalves, Neto e Canabarro a indiferença, o desprezo, a frieza e o descaso não frutifiquem nunca mais.

Prosseguimos e entramos na Estrada do Mar para que o Formigão pudesse conhecê-la, e no seu final, já em Torres (RS), paramos na Tenda do Pelé onde saboreamos pastéis de camarão (nota 7) com nacos de queijo e de embutidos regados a suco de laranja e a caldo de cana (garapa). Na saída comprei 1 kg de feijão vermelho, que dá um caldo consistente e tem gosto espetacular. Gosto muito.

Em Torres voltou a chover forte e o tempo fechou totalmente de novo. Então só de marra, decidimos passar direto por Sombrio (SC) e parar somente em Araranguá (SC) para pernoite. Nos hospedamos no Hotel Mazzuco, na beira da BR-101, um hotel bem ao gosto da média dos motociclistas, bom, simples, barato e funcional, e com posto de combustíveis e local para refeições ao lado.

Em tempo, registro que cruzamos a divisa entre os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina pela ponte por sobre o Rio Mampituba.

Relaxamos bastante, tiramos o pó e o mofo dos muitos kilômetros molhados, conferimos as caixas de rum e de noite fomos jantar na Lanchonete Mazzuco, contígua ao hotel. A comida era muito simples, e por isso mesmo bem palatável. Comemos arroz, feijão, salada, batatas fritas, bife e ovo. Empurramos o entulho goela abaixo com uma Devassa geladinha. Daí fomos descansar e dormir. E choveu prá dedéu a noite todinha.

Antes de desligar o corpo e a consciência pensei muito sobre as coisas de cunhos emocional e afetivo que me tem ocorrido, e concluí que gastei o aço do estribo na busca da Nanda e de mim mesmo, e me transformei em distância...

Numa quinta-feira braba, 08 de dezembro, aniversários da cidade de Guarulhos (SP) e da Darci Paulino, minha queridíssima madrinha, o dia amanheceu desconfiado, de cabeça baixa, mais enfumaçado que rescaldo de incêndio. Até parecia que todos os sacis, gnomos e duendes daquelas matas tinham resolvido pitar seus cachimbinhos ao mesmo tempo.

Esperamos que a bruma se alçasse um pouco e pegamos estrada às 8:30 h, com previsão de pousarmos em Joinville (SC) ou Garuva (SC).

Com tempo nublado e sem chuva a viagem foi se desenvolvendo bem, e estava agradável de se pilotar com temperatura amena. Ao atingirmos Joinville decidimos prosseguir até Garuva, e lá chegando, como estivéssemos bem dispostos à custa de Red Bull, resolvemos então seguir viagem e darmos um tiro bom até Cajati, já no Vale do Ribeira em São Paulo.

Chegando a Cajati, como essa não é lá uma cidade das mais aconchegantes, olhamos um para o outro, o Formigão, sério como de costume, fumou outro cigarro, e decidimos num piscar d’olhos pernoitarmos em Registro (SP), onde chegamos na boca da noite e nos hospedamos no Hotel Gran Valle, bom, bonitinho, barato e com atendimento simpático e bem acima da média.

Relaxamos um pouco após o banho, e jantamos no próprio hotel uma comidinha honesta. Depois fomos dormir cedo por estarmos cansados em razão de termos puxado mais de 700 km, quando a previsão inicial era de 430 km.

No meu último dia dessa viagem com o parceiro Formigão o trecho seria de apenas cerca de 180 km, mas no dia 09 de dezembro, uma sexta-feira sem tempero, saímos do hotel e pegamos estrada cedo até por força do hábito.

A breve viagem do dia trancorreu mansa e serenamente, e chegamos ao coração da cidade de São Paulo em pouco mais de duas horas.

Aproveitamos o resto da manhã para irmos de mala e cuia diretamente para as Bocas de Moto de São Paulo, onde o Formigão comprou e pediu para que fossem despachados um novo pneu traseiro e escapes muito chiques para sua Boulevard 800.

Feito isso, fomos para o início da Rodovia Ayrton Senna (SP-070), e no seu entroncamento para o Aeroporto Internacional André Franco Montoro em Guarulhos, nos despedimos de forma emocionada e doída.

Fui para minha casa e o Formigão seguiu viagem para o Rio de Janeiro com previsão de parada para pernoite em alguma cidade do Vale do Paraíba (SP).

Cheguei na garagem do prédio onde moro, subi as bagagens auxiliado pela Thaís, minha primogênita, que casualmente estava por ali, me livrei das roupas de viagem e preparei imediatamente um bom chimarrão para relaxar e pensar.

E pensando me descobri mais sozinho do que nunca, machucado, dilacerado, vazio, triste e desencantado por ter chegado aos 60 anos e ter constatado minha total incompetência em ser feliz. Sim, pois em que pese a indiferença e o desprezo da Nanda por tudo que sinto e faço por ela, se me encontro dessa forma, devo isso somente a mim.

Mais tarde Formigão me deu notícia de que havia decidido chegar em casa no mesmo dia, e que na altura de Quatis (RJ) havia pego uma chuvarada profissional que o acompanhou até a Baixada Fluminense (RJ), mas que havia chegado bem ao Sítio do Formigão Amarelo na Ilha do Governador (RJ), e que as garrafas de rum tinham chegado intactas com a proteção de Baco.
                               
Baco (em grego: Βάκχος, transl. Bákkhos; em latim: Bacchus) era um nome alternativo, e posteriormente adotado pelos romanos, do deus grego Dioniso, cujo mito é considerado ainda mais antigo por alguns estudiosos. Os romanos o adotaram, como muitas de suas divindades estrangeiras à mitologia romana, e o assimilaram com o velho deus itálico Liber Pater. Algumas lendas mencionam que a cidade de Nysa, na Índia (atual Nagar) teria sido consagrada a ele. É o deus do vinho, da ebriedade, dos excessos, especialmente sexuais, e da natureza. Príapo é um de seus companheiros favoritos (também é considerado seu filho, em algumas versões de seu mito). As festas em sua homenagem eram chamadas de bacanais - a percepção contemporânea de que tais eventos eram "bacanais" no sentido moderno do termo, ou seja, orgias, ainda é motivo de controvérsia.
Dizer que o 1º Abraçando o Uruguay foi bom, bem organizado e sem defeito algum, seria dizer muito pouco e não traduziria a realidade. Em verdade esse evento foi perfeito, completo, magnífico, singelo, organizadíssimo, diferente e com participantes espetaculares e ótimos companheiros. Foi o melhor evento do qual participei no últimos 279 anos. Só senti mesmo, e como senti, falta da Nanda na minha garupa. Porém, quem poderá prever o futuro ?

Quero agradecer muito aqui de forma penhorada a todos os participantes do 1º Abraçando o Uruguay nas pessoas de: Cláudio Velho, Cesar, Celeste, Quinhones, Heber, Faiska, Mena, Otto, Rô Bonita, Valnoi e Helena, Chico Pedra Lascada e Ana, Romeu, Linhares e Maiato, do Rio Grande do Sul.

Agradezco también a Loro, de la Republica Argentina.

Tan cariñosas gracias a mi querido Uruguay, a su policía y a su gente en las personas de: Jesol y Señora Lidia, Zebrita, Carlito, Juan Baiano e Alejandro Javier.

De forma mais que especial agradeço muito a:

Canibal, pelo convite, pela recepção, pelo companheirismo, pelo bom humor, pela amizade, pelo som da sua gaita de boca, e pela acolhida em Rio Grande.

Claudião e Evelise, pela recepção, pela amizade, pela parceria e pela total disponibilidade em Pelotas e por todo trajeto do evento.

Schutz, pela companhia full time, pelo ótimo humor, pela simpatia e por ter tornado mais prazerosa nossa viagem.

Vagner, pela companhia constante, pela amizade, pelas dicas para minha próxima tatuagem, e por ter rebocado a moto do Claudião.

Mito, pela parceria total e por ter transportado com cuidado nossas caixas de rum.

Fabrícia, pelo carinho, pela sensibilidade, por me ouvir quando eu precisei tanto de um interlucutor, pelo sorriso e por ter tornado minha viagem melhor e menos triste.

Hilton e Déia, por serem mesmo grandes companheiros de viagem e pela magnífica reportagem do evento.

Kojak, pela excelente recepção dada ao grupo em Santana do Livramento, pela amizade, pelo carinho e por ter estado sempre à nossa total disposição. Gracias, mi querido compañero de Ushuaia.

Romácio, por ter sido o interlocutor oficial do nosso grupo, pelo discurso emocionado e sensível na 1ª Motocena Solidaria, e pela parceria e companheirismo no retorno. Extensivo ao seu filho Jr.

Henrique, Ademir, Dindo e pessoal de Pelotas, pelo carinho costumeiro, pela recepção, pela amizade sem limites, pela disponibilidade, pelo apoio, pela compreensão e pelo excelente assado de anchovas.

Cacalo, pela amizade imediata, pelo mate, pelas dicas e informações e pelo extremo carinho com que fomos tratados em seu hotel.

E derramo aqui loas ao Formigão, grande figura, parceiraço, companheiro de todas as horas, gentil, sereno, e pau prá toda obra, principalmente se houver rum. Beijo, Formiga !

Obrigado, gente ! Até a próxima, que espero não demorar muito. Beijo e abraço carinhosos em todos.

Beijo loco de especial prá ti, Nanda. Acho que te amo desde que nasci, e morro a cada manhã sem ti. Velvas para mis brazos, mi princesita, para que yo pueda ser feliz como hace tiempo.

Dedico a todos uma Oração Céltica:

Que a estrada se abra à sua frente,
Que o vento sobre levemente às suas costas,
Que o sol brilhe morno e suave em sua face,
Que a chuva caia de mansinho em seus campos,
E, até que nos encontremos de novo,
Que Deus lhe guarde na palma de Sua mão.

Y por fin, parte de la Milonga de Tres Banderas, de Jaime Caetano Braun:

... brasileño y oriental,
Rio grandense y argentino,
Piedras del mismo camino,
Aguas del mismo caudal,
Hicieron de tu señal
Himnos de Pátria y clarín
Hasta el mas hondo confin,
Bajo el cielo americano
De Osório, Artigas, Belgrano,
Madariaga y Sam Martin...


Marcão, em 25 de dezembro de 2011.
marconibarbuto@yahoo.it
motocicleta@uol.com.br
fone: (11) 8317-0203 TIM

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